Uma traição necessária

Notícias 29 January 2010 | 0 Comments

Taynée Mendes, Jornal do Brasil
http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/01/09/e090113129.asp

RIO – O autor adverte: “Este livro é escrito em cubano”. A afirmação pode assustar muitos tradutores diante de um romance tão complexo como Três tristes tigres, de Guillermo Cabrera Infante. A narrativa, cheia de armadilhas de linguagem, parece confirmar a tese de que traduzir é trair.

Depois de mais de duas décadas fora de catálogo no Brasil, o livro mais conhecido do escritor cubano ganha nova tradução assinada pelo jornalista Luís Carlos Cabral, que relata o desafio nesta entrevista.

Como foi traduzir “um dos mais ousados, do ponto de vista da invenção, livros já escritos”, segundo suas próprias palavras na ‘Nota do Tradutor’?

Já traduzi mais de 50 livros e este foi, sem dúvida, o mais difícil. É que se trata de um livro cheio de brincadeiras de linguagem, palíndromos, aliterações. Há personagens que falam errado e o autor reproduz sua maneira de falar. Quem falava errado em espanhol na versão original passou a falar errado em português na tradução. Fui obrigado a fazer adaptações. Mas estas foram apenas algumas das dificuldades.

Qual a maior dificuldade?

Foram tantas que é quase impossível nomear uma delas. Um exemplo: havia mais de 160 termos de arquitetura e decoração, a maioria dos quais não assinalados nos dicionários gerais. Mas acabamos resolvendo e chegando a palavras como tríglifos, métopas, sofito e por aí vai. Na verdade, trata-se de uma brincadeira do Cabrera Infante com o grande escritor cubano Alejo Carpentier, o rei das descrições minuciosas.

Quanto tempo levou para concluir a tradução?

Precisei de cerca de seis meses para fazer a primeira versão, aquela que encaminhei à editora. E depois, na reta final, cerca de dois meses para fechar o texto que foi publicado. Na última leitura, ainda fiz mais de 80 observações. E estaria mentindo se dissesse que não há mais nada a corrigir. O autor repete, com razão, a velha frase de que traduzir é trair. Mas é uma traição necessária, pois se não existissem os tradutores o conhecimento não circularia. A literatura ficaria restrita àqueles que têm a língua em que os livros foram escritos como língua mãe. Ou seja, os brasileiros não conheceriam Cervantes, os franceses não conheceriam Joyce, os alemães não conheceriam Guimarães Rosa e assim por diante.

Pode citar trechos, expressões ou palavras que mais lhe deram trabalho e que solução foi encontrada em português do Brasil?

Quase todos os palíndromos, aquelas palavras ou frases inteiras que podem ser lidas indiferentemente da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita, tiveram de ser adaptados para permanecerem palíndromos também em português. Como em dábale arroz a la zorra el abad (na tradução literal “o abade dava sopa à raposa”) que transformei em “morram após a sopa marrom”. Mas, às vezes, quando a tradução era óbvia, deixei no original mesmo. Foi o caso de Anilina y oro son no Soroya ni Lina. E os trava-línguas. Como em cacarajícara hay uma jícara que el que la desencacarijicare buen desencacarijador de jícara em Cacarijícara será que virou “em Cacaraxícara há uma xícara e aquele que a desencacaraxicar bom desencacaraxicador de xícaras em Cacaraxícara será”. Outro exemplo: há uma Cantata do Café, uma cantiga infantil com cinco estrofes, cada uma correspondente a uma vogal e por essa dominada. Uma delas, a da vogal “e”, diz em espanhol: Ye te deré/Ye te deré neñe hermese/Te deré ene kese/Ene kese ke ye sele se/KEFE. Ela ficou assim em português: Ee te deré/Te deré menene benete/Te deré eme keise/Eme kese ke se ee se. Na verdade, traduzindo para o “adultês” seria: “Eu te darei/Te darei menino bonito/Te darei uma coisa/Uma coisa que é/CAFÉ”. Ou as palavras lidas através do espelho. No original era assim: Mano/onam; Azar/raza; Aluda/adula; Otro/orto; Risa/asir. E ficou assim: “Rara/arar; Sala/alas; Roma/amor; Acata/ataca; Marrom/morram; Arado/odara; Raiva/aviar. Ou encontrar o significado de Guan-Habana, que traduzi para “Guan-Havana”: assim foi apelidada a parte da cidade frequentada pelos americanos que a chamavam de Havana One. Guan é uma brincadeira com a palavra inglesa one, ouvida e reproduzida como guan pelos cubanos. Esta fez parte do trabalho braçal que é traduzir: pesquisar infinitamente para chegar ao significado exato das palavras.

Cabrera Infante afirma, na ‘Advertência’, que o “livro é escrito em cubano”. O que significa?

É o espanhol falado pelos cubanos, mas muitos personagens falam em havanês, numa gíria particular dos personagens da noite de Havana. Mas esta não foi a principal dificuldade, pois tanto o cubano como o havanês têm muita semelhança com o espanhol. E, quanto à gíria, sempre que tive dificuldade, sempre que não foi possível recorrer aos dicionários com os quais trabalho, pedi a ajuda de amigos latino-americanos ou espanhóis. Traduzir não é nunca um trabalho individual, solitário. Nós, tradutores, costumamos incomodar muita gente, muitos especialistas na matéria objeto dos livros que traduzimos, para incomodar o menos possível os leitores.

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Kama Sutra é o livro mais pirateado de 2009

Notícias 22 January 2010 | 0 Comments

Por Nátaly Dauer

O site Freakbits.com, responsável por notícias sobre o popular site de compartilhamento de arquivos BitTorrent, divulgou uma lista de seus livros mais baixados em 2009 (que, por acaso, é bem diferente dos livros mais citados nos jornais de sucesso).

O indiano Kama Sutra é o topo da lista dos downloads ilegais, dominada por livros de sexo, manuais e auto-ajuda – mas sempre sobra um espacinho para a popular saga Crepúsculo.

A autora da série de bestsellers vampirescos, Stephenie Meyer, acredita que aqueles que compram e-readers ou desejam ler um livro em seu computador, baixam os e-books ilegalmente não só por serem gratuitos, mas também pela facilidade e anonimato, conta o site do jornal inglês The Independent.

Segue a lista dos 10 e-books mais pirateados de 2009:

1. Kama Sutra
2. Photoshop Secrets
3. The Complete Idiot’s Guide to Amazing Sex
4. The Lost Notebooks of Leonardo da Vinci
5. Solar House: A Guide for the Solar Designer
6. Before Pornography: Erotic Writing In Early Modern England
7. Twilight: Complete Series
8. How To Get Anyone To Say YES: The Science Of Influence
9. Nude Photography: The Art And The Craft
10. Fix It: How To Do All Those Little Repair Jobs Around The Home

Os e-books listados foram baixados entre 100 mil e 250 mil vezes.

O FreakBits também divulgou que outros autores pirateados, presentes entre os 25 primeiros lugares, foram Dan Brown, Stephen King e JK Rowling, em parte devido ao próprio mercado oficial de e-books pelas editoras. O atraso de semanas no lançamento da versão digital de Under the Dome de Stephen King, na tentativa de aumentar as vendas físicas da obra, fez com que os donos de e-readers preferirssem baixar o texto ilegalmente. Outro exemplo é a recusa de JK Rowling em liberar a série Harry Potter para o mercado eletrônico, com medo da pirataria.

Fonte: http://www.geek.com.br/posts/12003-kama-sutra-e-o-livro-mais-pirateado-de-2009

‘Portugueses de Malaca’: Aprender a língua para preservar a identidade

Notícias, Outros 20 January 2010 | 0 Comments

Portugueses de MalacaSegundo explica Cátia Candeias, que está a ministrar as aulas e que é licenciada em desenvolvimento comunitário, o projecto, nascido após auscultação aos líderes desta pequena comunidade, partiu da percepção das aspirações e características idiossincráticas da comunidade – «ser religiosamente cristã, falar um crioulo português (oral, nunca escrito), possuir grupos folclóricos que dançam música portuguesa e que trajam com sinais evidentes de ligação a Portugal, demonstrar práticas culturais de ligação afectiva e patrimonial a Portugal» e «ter um historial de reivindicação de valores e argumentos para a sua autonomia e diferenciação no conjunto dos povos da Malásia».

O projecto, que vai ter para já a duração de oito meses, partiu também, segundo a docente, da «própria consciência da comunidade de que o número de falantes do seu crioulo português está a diminuir» e de que não bastava a mera repetição do que existe para que este pequeno conjunto humano – cerca de 3.000 pessoas vivem no bairro português de Malaca, construído nos anos 30 do século XX por proposta de um missionário francês, mas muitos outros ‘portugueses’ emigraram para outras regiões da Malásia e para Singapura – pudesse manter e afirmar a sua identidade no meio da diversidade cultural e linguística do país.

Cátia Guerreiro
Cátia Guerreiro

O sistema educativo baseado na língua oficial da Malásia (bahasa malaysia), bem como a própria estrutura social e étnica da Malásia (com três grupos maioritários – malaios, chineses e indianos), não facilita a preservação dessa identidade.

A partir deste quadro de referências, acrescenta Cátia Candeias, tornou-se «natural» fazer da aprendizagem do Português o «melhor instrumento de mediação para o desenvolvimento daqueles argumentos que, historicamente, foram sempre mobilizados como factores de identidade: a religião, a língua e a cultura».

Nas reuniões havidas com os representantes da comunidade, entre os quais o regedor Peter Gomez e o vice-regedor Michael Banerji, logo após a chegada de Cátia Candeias a Malaca, a 4 de Setembro, foram definidos os objectivos do projecto, a saber, «a sistematização e estudo do português de Malaca e o aumento dos conteúdos em português, através de aulas organizadas para o efeito e de trabalhos de recolha e estudo; o aumento dos repertórios coreográficos dos grupos de folclore; e a reparação de um manual de aprendizagem escrito em quatro línguas: português – português de Malaca – malaio e inglês, para quem a ele deseje recorrer». «O maior interesse da comunidade é que os mais novos não deixem de falar o crioulo português de Malaca para, através deste, se chegar ao português», sintetiza.

A dança folclórica foi a ‘porta’ escolhida pelo projecto ‘Povos Cruzados’ para ‘entrar’ junto desta comunidade, outrora composta sobretudo por pescadores pobres, e cujas «características sociais e económicas menos favoráveis condicionam processos lineares e simples de aprendizagem», no dizer de Cátia Candeias.

Um mestre de danças, José Machado, da Associação Cultural «Os Sinos da Sé», que esteve no bairro português 21 dias, «recolheu algumas músicas e poesias da comunidade e adaptou-as a passos de folclore português, necessariamente adaptados ao clima tropical, quente», relata a professora. «Este componente foi extremamente importante para o envolvimento total da comunidade», que o desejava há largos anos. E o mestre foi a pessoa indicada, dados os seus conhecimentos do folclore de Portugal. «Desta forma, o projecto logo de início incluiu uma série de componentes que permitiram à comunidade abraçar, sem restrições, a aprendizagem formal, isto é, as aulas de Português».

No entanto, Cátia Candeias sublinha que a motivação para estudar a Língua Portuguesa passa, em primeiro lugar, pelo «amor e orgulho profundo» no seu crioulo e na sua «cultura própria de raízes portuguesas». «Querem aprender Português porque nunca tiveram esta oportunidade», diz. Esta percepção da docente resultou da própria inquirição que fez junto dos alunos logo nas primeiras aulas.

«As crianças estão bastante entusiasmadas, ficam sempre curiosas com os temas das aulas e querem sempre prolongar a aula», dá conta a professora, que regista atitude semelhante por parte dos jovens e adultos. «Apesar de alguns já terem a sua vida programada, têm estado a reagir de forma muito criativa e positiva. Por vezes são eles próprios que me propõem os temas a abordar na aula», sublinha.

Cátia Candeias considera que os frutos do ainda curto trabalho desenvolvido «estão já à vista», não só pelo número de alunos que frequentam as aulas de Português, como pelas fotografias e vídeos que são continuamente colocados no blogue criado em Malaca para o projecto: www.povos-cruzados.blogspot.com. «Tudo continua em crescimento», garante.

As aulas de Português estão a decorrer no Portuguese Settlement – Open air Stage, na praça principal do bairro português, com o apoio do ‘Painel Regedor’ do Portuguese Settlement. Foram organizadas duas classes: uma para as crianças entre os 6 e os 15 anos, outra para os jovens e adultos em simultâneo, entre os 16 e os 75 anos. A turma das crianças começou 20 de Outubro e, no primeiro dia, apareceram 18 alunos. Logo no segundo, já foram 26. A turma dos jovens e adultos iniciou-se a 3 de Novembro de 2009. No primeiro dia apareceram cinco alunos, número que aumentou subsequentemente para 16 alunos. Na opinião da professora, «com a divulgação das aulas de Português pela comunidade o número de alunos terá tendência a aumentar».

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Língua Portuguesa no ensino não universitário: Quando estudar é mesmo para saber mais…

Outros 18 January 2010 | 0 Comments

Polónia, República Checa e Roménia são os três países em que o Português é uma disciplina opcional ou curricular nos programas oficiais do ensino não universitário, seja ele básico, secundário ou médio.

Cracóvia
Cracóvia

Segundo José Carlos Dias, leitor do IC na Universidade de Varsóvia, no Liceu Ruy Barbosa, da capital polaca, «o português é umas das línguas estrangeiras do leque de opções curriculares, ao lado do inglês, alemão e russo». E numa escola secundária de Lublin e em duas de Cracóvia é uma opção livre.

Ao todo são 188 alunos, cabendo a fatia principal aos 122 inscritos em seis turmas – duas por cada nível (inicial, elementar e intermédio) – do Liceu Ruy Barbosa, segundo os dados avançados pelo leitor do IC. Na escola secundária de Lublin, há 30 alunos de português divididos numa turma de nível inicial e outra de nível elementar. Já em Cracóvia, o Liceu nº V e o Liceu nº XVII têm cada um uma turma de nível inicial, com 12 e 17 alunos, respectivamente. O Liceu nº XVII passará a ter duas turmas este mês com carácter obrigatório, revela José Carlos Dias.

Na Polónia, a integração de uma língua estrangeira nos currículos escolares depende da vontade da escola, afirma José Carlos Dias. Foi o que aconteceu com o Liceu Ruy Barbosa. «A integração do Português como língua curricular em escolas do ensino inicial é um trabalho por fazer na Polónia», considera o leitor que lamenta o facto de em 2006/2007 o Estado polaco ter retirado o Português do leque de exames de língua estrangeira que se fazem no 12º ano.

Na Roménia, é possível estudar Português em três liceus – Eugen Lovinescu, de Bucareste, George Galinescu, de Constança, e Mihai-Eminescu, da cidade de Cluj Napoca. Em 2008/2009, mais de 260 alunos frequentavam aulas de Português nestes três estabelecimentos. Entre o 5º e o 12º anos, em Bucareste, e entre o 9º e 12º anos nos liceus das duas outras cidades.

Já na República Checa, o Português é disciplina opcional da Escola de Hotelaria de Praga, um estabelecimento de ensino técnico, e na Escola Média/Superior de Praga 7, especializada em línguas, que corresponde, grosso modo, ao que hoje é em Portugal o ensino secundário (10º ano em diante) e um bacharelato, que na realidade se assemelha mais ao que se poderia descrever como ensino pré-universitário, um pouco à maneira americana – na explicação de Joaquim Coelho Ramos –, mas que permite, como já aconteceu no ano passado com três alunos, o acesso ao mestrado universitário, segundo o modelo de Bolonha. Aqueles alunos escolheram o Português para matéria do seu exame de Estado de acesso aos mestrados de Língua Portuguesa e Pedagogia.

Na Escola de Praga 7, os exames de acesso, em Junho, trouxeram mesmo uma surpresa: «o Português foi a língua mais procurada». De 52 candidatos para várias línguas, 22 foram para Português.

Na escola de Hotelaria os alunos têm de escolher línguas e entre estas está o Português, uma disciplina anual. No ano lectivo de 2008/2009 12 alunos fizeram essa opção e o seu número este ano será da mesma ordem.

Praga
Festa da Europa na Escola PrimáriaRoztoky u Prahy, Praga

No norte da República Checa, o Gymnázium de Lovosice, na localidade do mesmo nome, estabeleceu um projecto no âmbito da União Europeia com a Escola E B 2,3 de Paranhos, Porto, em que um dos principais efeitos é o ensino do Português na faixa etária dos 14-17 anos, revela ainda Joaquim Ramos. Dois professores dessa escola checa estão a frequentar este ano um curso intensivo de Português, apoiado pelo IC, no CLP de Praga, para depois ministrarem o Português de nível básico aos seus alunos.

No passado, houve também o ensino de Português numa escola da Morávia, na cidade de Šumperk, mas neste momento não há professor. «Vamos tentar pôr lá alguém», promete Joaquim Ramos, que explica a dificuldade pelos «muitos pedidos a nível do superior para o ensino do Português». «Não temos capacidade de resposta», admite o responsável do CLP de Praga, onde mais 25 checos aprendem Português nos vários níveis dos cursos livres. É essa a razão por que não tem sido possível satisfazer o pedido da Universidade Técnica de Liberec de abertura de um curso de Português não conducente a grau académico.

O ensino de Português nestas escolas do leste europeu é assegurado maioritariamente por professores dos respectivos países. Em Varsóvia, segundo indica José Carlos Dias, são professoras polacas licenciadas em Estudos Portugueses pela Universidade de Varsóvia. Em Lublin, o Português é assegurado por seis professores da secção de Estudos Portugueses da Universidade de Marie-Curie Sklodowska, entre os quais há um de nacionalidade portuguesa. Em Cracóvia, o professor é um cidadão português a viver na cidade, com formação em ensino de Português. Na Roménia, o panorama não é muito diferente, assim como na República Checa.

Para facilitar a preparação de professores, em Outubro passado foi assinado um protocolo entre IC e o município de Cracóvia, que tutela os dois liceus da cidade em que se ensina Português – o V Liceum Ogólnoksztalcace im Augusta Witkowskiego e o XVII Liceum Ogólnoksztalcace im. Mlodej Polski. –, o qual permite aos estudantes do 2º ciclo de Filologia Portuguesa da Universidade Jagellónica, de Cracóvia, efectuar os estágios pedagógicos necessários à obtenção do diploma de «magister» (professor) no ensino da Língua Portuguesa.

A intervenção dos leitorados e dos centros de língua portuguesa do IC no apoio pedagógico a estes professores é diversa. Enquanto na Roménia o apoio científico-didáctico está nas atribuições dos leitores portugueses, na Polónia essa ligação é mais fluida. «Como a professora de Varsóvia é jovem e não tem muita experiência de ensino, eu apoio-a na planificação e preparação das aulas. Mas esta situação é nova e excepcional», declara José Carlos Dias. «Normalmente a planificação lectiva é da responsabilidade dos professores», sublinha, acrescentando que «a relação das escolas com o IC vê-se nas actividades culturais do leitorado».

Já na República Checa, a intervenção científico-didáctica do CLP/IC de Praga nas escolas secundárias é pontual. O responsável do centro está sobretudo preocupado em responder à procura de professores de Português, como acontece com a formação em curso de dois professores para o o Gymnázium de Lovosice, a cargo do próprio leitor português e de um bolseiro checo, filólogo de português.

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Como não fazer um artigo

Outros 16 January 2010 | 0 Comments

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Os fundamentos da redação científica tiveram importantes transformações nos últimos anos, mas essas mudanças ainda não foram integralmente assimiladas por grande parte dos pesquisadores, que reproduzem – e muitas vezes ensinam – equívocos teóricos e conceituais que podem até mesmo retardar o avanço da ciência.

Essa é a opinião de Gilson Volpato, professor do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que em seu novo livro, Pérolas da redação científica, analisa criticamente 101 equívocos comuns – ou “pérolas”.

Volpato vem apresentando pelo país cursos sobre redação científica e publicou outros cinco livros sobre o assunto, sendo o mais recente desses Bases teóricas da redação científica … por que seu artigo foi negado, lançado em 2007.

“Apresento quase um curso por semana sobre o tema, procurando ajudar pesquisadores a conseguir publicações em revistas internacionais de alto nível. Mas também há muitos que, de forma involuntária, têm feito o serviço contrário. Desenvolveu-se, no Brasil, uma cultura de publicação equivocada. Boa parte dos artigos nacionais, mesmo com tradução correta, será recusada em revistas importantes, por terem equívocos conceituais”, disse à Agência FAPESP.

Com a experiência acumulada nos cursos e em seu convívio com o meio acadêmico, Volpato decidiu produzir um inventário dos principais equívocos da redação cientifica. “A ideia foi abordar os erros mais gritantes. O resultado foi essa coleção de ‘pérolas’ da cultura nacional de publicação”, disse.

Na obra, o autor analisa os equívocos, faz conjecturas sobre suas origens, discute suas consequências na prática e oferece correções com base nos padrões internacionais de produção científica.

Segundo ele, os conceitos de comunicação no setor sofreram grande mudança a partir da década de 1990, que se acentuou ainda mais nos últimos dez anos, em parte por causa do advento da internet.

“Muitos pesquisadores cometem equívocos e alegam que estão apenas seguindo os procedimentos adotados por seus orientadores há 30 anos. Mas as coisas mudaram e a comunicação científica evoluiu. Os leitores vão se surpreender, pois muitas das pérolas descritas no livro irão corresponder exatamente ao que eles continuam ouvindo de seus orientadores”, afirmou.

A internet, segundo Volpato, subverteu a lógica das revistas científicas, causando impacto nas necessidades e objetivos dos artigos. “Antes o veículo era o foco. O assinante recebia uma determinada revista científica e ali entrava em contato com diversos artigos. Hoje ocorre o inverso. A pessoa faz uma busca por palavras-chave na internet e chega ao artigo diretamente. Eventualmente, o cientista fica conhecendo a revista por meio do artigo e não o contrário”, disse.

Se antes da internet o leitor precisava ir em busca dos autores, hoje os autores procuram chegar aos leitores. “Antigamente o leitor precisava ir heroicamente atrás dos poucos artigos disponíveis. Mas agora ele precisa fazer uma triagem dos milhares de artigos a que tem acesso. Com isso, a necessidade de se fazer uma comunicação eficiente é muito mais importante – e esse fato está mudando a estrutura dos artigos”, declarou.

Nessa nova lógica, os velhos hábitos de redação científica se transformam em “pérolas” recorrentes, segundo Volpato. Um dos equívocos, por exemplo, é acreditar que o número de referências bibliográficas implica qualidade científica. Outro, consiste em achar que todos os dados coletados no projeto devem fazer parte do texto.

“Vemos equívocos de todos os níveis. Um exemplo é achar que estudos quantitativos são mais robustos que os qualitativos. Outro é acreditar que a redação cientifica exige regras rígidas de estilo – ou que a voz passiva é característica do inglês científico. Achar que o título deve conter, necessariamente, o nome da espécie de estudo. Há também pérolas que são fruto do conservadorismo, como sustentar que introdução e justificativa são itens separados. Ou achar que revistas eletrônicas têm menos prestígio que as impressas”, destacou.

Textos em inglês

Para Volpato, a globalização das revistas científicas de alcance internacional está nivelando as publicações por cima. Essa consequência positiva, entretanto, deverá forçar também para cima o nível de exigência para aceitação dos artigos.

“A maioria das revistas brasileiras, mesmo as que estão na base ISI, é citada apenas por brasileiros. Poucas são, de fato, internacionais e temos que melhorar nosso nível. O primeiro passo, claro, é que a publicação seja em inglês. Temos que compreender que o fato de uma publicação ter alcance internacional tem uma consequência benéfica para a ciência: a seleção dos artigos é feita por pessoas de várias culturas e isso representa um crivo crítico de maior qualidade”, afirmou.

O livro, de acordo com Volpato, é direcionado para a redação científica em geral, incluindo todas as áreas das ciências biológicas, ciências da vida, humanas e exatas.

“O foco está no que chamamos de ciência empírica – que é aquela ciência que precisa de dados para ter conclusões. Portanto, não se aplica muito bem à filosofia, por exemplo. Mas poderá ser utilizado pela maior parte dos pesquisadores das outras áreas”, disse.

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