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DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS LINGÜÍSTICOS  - DIALETO CAIPIRA

 

 

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GÊNEROS DO DISCURSO: LINGUAGEM E INTERAÇÃO NA LEITURA E ESCRITA

  

Maria Rosa Petroni (UFMT)

 

A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor (Bakhtin, 1979, p. 99).

A linguagem assumiu o estatuto de ciência autônoma graças aos estudos desenvolvidos por Saussure, a partir da célebre dicotomia língua/fala caracterizada no seu Curso de Lingüística Geral. Enquanto esta é ato individual de vontade e de inteligência, acessória, acidental, aquela é produto social que o indivíduo registra passivamente, conjunto de convenções, princípio de classificação. Com essa distinção, o estruturalismo saussuriano postulou a autonomia da língua em relação à fala, não assumindo esta última como objeto da Lingüística.

Essa oposição, entretanto, foi questionada por Bakhtin, para quem a linguagem é uma forma de interação social que se estabelece entre indivíduos socialmente organizados e inseridos numa situação concreta de comunicação. É nessa perspectiva que Bakhtin (1979) concebe a língua como um fato social, concreto, individualmente manifestado pelo falante. Concebe, assim, a enunciação como realidade da linguagem, inserindo, também, a situação de enunciação como elemento necessário à compreensão das trocas lingüísticas. Como fenômeno de interação, na enunciação, o interlocutor ocupa o lugar de sujeito ativo na constituição do sentido e a linguagem articula o lingüístico, o social e o ideológico. Para Bakhtin (1979, p. 22), “a palavra é o modo mais puro e sensível de relação social ... É, precisamente, na palavra que melhor se revelam as formas básicas, as formas ideológicas gerais da comunicação semiótica”.

Ao inserir a enunciação no contexto social mais amplo, o autor não só enfatiza a importância da situação de produção, incluindo os “atos sociais de caráter não verbal”, como explicita a verdadeira substância da língua, ou seja, sua realidade fundamental, constituída pelo “fenômeno social da interação verbal”, que propicia as circunstâncias para a evolução real da língua: “a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta” (Bakhtin, 1979, p. 110).

Assumida como forma de interação, a linguagem estabelece a relação do lingüístico com o extralingüístico e instancia o discurso, uma vez que toda palavra procede de alguém e dirige-se para alguém. Assim, a realização da palavra como signo concreto é determinada pelas relações sociais, pelos interlocutores e pela situação de produção.

Segundo o autor (2003), todo discurso tem como traço essencial (constitutivo) o endereçamento a um destinatário, cujo papel ativo no processo de comunicação não pode ser ignorado, já que determina não só o tratamento a ser dado ao tema, como também o querer-dizer do locutor e o gênero do discurso com o qual fazê-lo. Ainda segundo o autor, esses fatores são determinantes tanto no diálogo cotidiano quanto em obras de construção complexa e obras especializadas. Em ambas as situações, o discurso é uma unidade real, delimitada pela alternância dos sujeitos (falantes/escritores), na qual a individualidade se estabelece em relação aos demais discursos pela posição do locutor e com os quais mantém uma atitude responsiva ativa (concordância, discordância, obediência, execução, objeção, adesão etc), também esperada em relação a esse novo discurso. Nessas circunstâncias, a atividade discursiva é fruto da interação entre os seres, caracterizada por uma dimensão discursiva mediada pela linguagem, no interior da qual se forjam os processos de significação.

Embora aspectos relacionados ao ensino-aprendizagem de leitura e escrita no processo de escolarização formal de crianças e jovens não se constituíssem em preocupações para Bakhtin, suas reflexões têm respaldado a discussão em torno do processo de apropriação dessas práticas sociais. No Brasil, isso passou a ocorrer marcadamente após a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN, 1998), “referencial de qualidade para a educação no Ensino Fundamental em todo o país”, que prevê a adoção do texto como unidade e o gênero como objeto de ensino de Língua Portuguesa.

Não ignorando as críticas que podem ser – e efetivamente o são – feitas a esse documento, é preciso reconhecer-lhe o mérito de ter provocado a realização de várias pesquisas, apontando alternativas para solucionar ou, ao menos, amenizar as dificuldades de domínio de leitura e escrita, práticas sociais indispensáveis na sociedade “multi” (letrada, facetada, genérica ...) em que nos inserimos.

Transpondo esses conceitos teóricos bakhtinianos para o campo do ensino da leitura e da escrita, percebemos sua grande atualidade, necessidade e viabilidade no que tange, especialmente, à produção do texto/discurso escrito, aspecto que apresenta inúmeras dificuldades tanto para professores, quanto para alunos. Assim, tomando-se o fato de que a comunicação entre os homens se realiza por meio de discursos coerentes, semântica e pragmaticamente organizados, o aperfeiçoamento das capacidades discursivas escritas necessárias à produção de textos coerentes e adequados a situações de comunicação diversificadas deve ser um dos objetivos do ensino de Língua Portuguesa: desenvolver e aperfeiçoar não só a competência lingüística, mas, principalmente, a competência discursiva. Para tanto, é indispensável propiciar ao aluno o domínio dos recursos lingüístico-discursivos, oferecidos pela própria língua, conduzindo-o à obtenção de efeitos de sentido adequados às diferentes circunstâncias em que realiza suas trocas lingüísticas orais e escritas.

A competência discursiva materializa-se, então, na compreensão do funcionamento e na produção dos diferentes discursos que circulam na sociedade, cada qual construído com diferentes mecanismos, cuja apropriação permite ao aluno transformar-se em sujeito do seu texto e não mero repetidor de idéias. Na modalidade escrita, essa competência manifesta-se na dimensão textual, que representa a apropriação dos recursos e mecanismos lingüístico-discursivos próprios à construção de cada gênero discursivo: o discurso se constitui em texto e somente nessa dimensão pode ser apre(e)ndido.

Esse modo particular de utilização da língua constitui-se em aspecto fundamental da competência discursiva do aluno, uma vez que a língua é uma realidade e, ao mesmo tempo, é uma forma de criar realidade. Sendo assim, a aprendizagem da língua deve instituir como objeto de estudo, análise e fruição o próprio discurso, materializado em diferentes gêneros.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal.  4 ed, São Paulo: Martins Fontes, 2003.

______. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucite, 1979.

       

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