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DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS LINGÜÍSTICOS  - DIALETO CAIPIRA

 

 

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A CONJURA DAS COXINHAS

 

Texto de Fábio César Montanheiro*

Ilustrações de Jean-Marc Soto**

 Todo início do mês de julho os meninos da antiga Vila Rica alvoroçavam-se em torno da disputa pelas vagas da equipe de sineiros que anunciava à cidade o tríduo e o dia de Nossa Senhora do Carmo. Como toda festa do gênero, a irmandade do santo louvado providenciava uma gorjeta aos sineiros no final do período festivo. Todavia não era apenas a gorjeta que a irmandade lhes oferecia que os movia nessa emulação. Mais do que isso, estava em jogo o desejo de todo menino-sineiro, que era o desafio de dobrar o Elias, o grande sino da cidade, ouvido somente em ocasiões extraordinárias, “o maior de Minas”, segundo dito corrente no lugar.

No dia da festa, noite ainda, foram surgindo, um por um, por entre a névoa da gélida madrugada, os sineiros selecionados. Eram cinco. Vinham de diferentes lados da cidade, serpenteando as ladeiras, corpos encolhidos sob a roupa tremelicante que as rajadas de vento uivante pareciam querer lhes arrancar.

 

 

Os garotos já estavam todos reunidos em frente à igreja para a alvorada festiva – é assim que chamavam esse toque matinal –, quando um vulto repentinamente assomou do lado de dentro do portão, saído do denso nevoeiro. Era o sacristão. Mal saudou os meninos, abriu o portão, entregou-lhes a chave da porta que dava acesso às torres da igreja, disse-lhes que se apressassem e acrescentou:

“E toquem bastante. Não parem de tocar os sinos enquanto a cidade toda não acordar!”

“Pode deixar!”, “Isso é com a gente mesmo!”, disseram dois deles.

“Mas conte bem os minutos, viu?”, acrescentou um outro.

“Por que?”

“Porque cada minuto que os sinos tocarem valerá uma coxinha.”

“Cêis são besta, sô? Larga mão de papo furado e anda logo, que tá na hora.”

Após rápida conversa, os sineiros dividiram-se entre uma torre e outra, não sem uma breve discussão para decidir quais seriam os dois entre eles que tocariam o Elias. A isso se seguiu o tropel de seus ligeiros passos sobre os degraus de pedra das escadas espiraladas. Tomadas suas posições, ficaram todos em silêncio, esperando o sino do relógio do Museu soar as seis horas daquela manhã de 16 de julho. Data solene para a irmandade, que, segundo costume secular, anunciava seu grande dia pelo repique de seus sonoros sinos antes que os primeiros albores delineassem as montanhas que circundam a cidade.

 Ao ouvir a sexta badalada, a meninada fez os sinos da igreja do Carmo soar longamente, numa bela cadência, acompanhados pela rouca voz do Elias e pelo espocar de foguetes que o sacristão soltava no adro da igreja.

Findo o toque, apesar do cansaço, desceram as escadarias das torres rapidamente, pois, como de hábito, iriam comer as desejadas coxinhas na padaria da esquina da Praça, a título de recompensa pelo trabalho realizado naquela madrugada.

No curto caminho entre a igreja e a padaria, o sacristão já lhes adiantava, emendando uma desculpa:

“Cêis num vão comer coxinha coisa nenhuma, sô! A essa hora só tem coxinha dormida, e coxinha dormida logo cedo num presta, não! Só vou pagar leite e pão pr’ocêis.”

“Leite e pão?!?!” Surpreenderam-se os meninos, entreolhando-se.

“É... um toddy e um pão com manteiga... na chapa... É: pão com manteiga na chapa! Pode até ser pão com queijo, vai... queijo quente... Faz frio, e um leite quentinho para esquentar o corpo vai b...”

Mal terminou de falar, um dos meninos se adiantou:

“A gente já se esquentou demais lá em cima, lidando com as cordas dos sinos. Não carece de nada quente para esquentar o que já está fervendo, não!”

E buscando apoio nos colegas, voltou-se a eles:

“O que a gente precisa é de alguma coisa para refrescar, né gente? Um guaraná, uma tubaína... e umas vinte coxinhas.”

“Vinte coxinhas!?!?”, surpreendeu-se o sacristão.

“É, vinte. A gente não tocou o sino por vinte minutos?”

“Quinze! E olha que eu marquei no relógio do Museu!”

“Tá bom, tá bom... Quinze coxinhas.” E, fazendo uma conta rapidamente: “Dá cinco... Não, não… cinco não: dá três para cada um.”

“Não, não e não! Quinze coxinhas? Cêis tão doido, sô? O dinheiro num dá!”

“Ah, então é por isso?”

E bombardearam o sacristão com uma chuva de impropérios:

“Rídico!”

“Sovina!”

“Miserável!”

“Mão-de-vaca!”

“Avarento! Pior que o tesoureiro da irmandade.”

Para encurtar a conversa, o sacristão, tomando a palavra, disse-lhes: “Ou cêis come pão ou num come nada.” E, fazendo ouvidos de mercador à contestação dos meninos, deu-lhes as costas, encostou-se no balcão, pediu seis pingados e seis pães com manteiga na chapa.

Mas os sineiros da madrugada, querendo levar aquela conversa adiante:

“Uai, sô! Num era toddy?”

“E o pão com queijo, num tá valendo?”

O sacristão, olhando-os por cima dos óculos, respondeu-lhes secamente:

“Café com leite e pão com manteiga pra todo mundo... e sem resmungueira!” Observando a reação deles, completou: “E é pra quem quiser, viu?”

Um dos meninos, o mais audacioso deles, perguntou:

“Que pão que é?”

“Heim?!” Disse o sacristão, tentando entender a quê aquela pergunta levaria. Para ganhar tempo, repetiu-a: “O que c’ocê disse? Que pão que é?”

“É... o pão... que pão que é? Pão de batata, pão de abóbora, pão de leite, pão francês ou...” E suspendeu a fala para dar mais ênfase ao que diria em seguida: “… pão duro?” E, vendo que seus colegas de ofício riam, encorajou-se: “É, pode ser pão duro, que é mais barato, né, gente?” E virando-se ao sacristão: “Seu pão-duro!”

“ÔÔÔÔ, minino! Ocê me respeita!”

Numa última tentativa, argumentou o garoto: “Aqui em Ouro Preto tudo não é tradição?” E continuou, escandindo as sílabas de algumas palavras: “Pois é! É tra-di-ção que no dia do santo das irmandades todas aqui da cidade a gente coma co-xi-nha depois da alvorada festiva.”

“Come, vai, menino! Pega seu pão, fecha o bico e come… E pára de me azucrinar, senão eu corto a gorjeta d’ocêis tudo pela metade.”

Comeram, meio a contragosto, mas comeram. Ao saírem da padaria, já distante dos meninos, gritou-lhes o sacristão, em tom imperativo:

“E voltem pra tocar o sino às nove e às nove e meia, que a missa cantada é às dez.”

“Tá bom”, respondeu um dos meninos.

“A gente sabe”, completou outro.

“Tá bom uma ova!”, retrucou o mais sedicioso deles aos colegas, aquele mesmo que chamara o sacristão de pão-duro. “Sacrista muquirana!” E, voltando-se a ele, gritou: “Eu não volto!”

Vendo que o sacristão dera de ombros ao seu protesto, tal como um conspirador foi granjeando a adesão de todos seus colegas de sino, até mesmo daqueles dois que, de antemão, haviam concordado em voltar.

 

Tic-tac… cinco para as nove… Tic-tac... nove horas... A cada ir e vir do pêndulo do grande relógio da sacristia o sacristão dava uma olhadela aos seus ponteiros, contando os segundos. Tic-tac... nove e cinco... Tic-tac... nove e dez... Finalmente convenceu-se: “E não é que aquelas pestes não vieram mesmo!?!” Nove e quinze... Nove e meia... Nem sequer uma badalada.

O altar-mor da igreja já estava todo adornado com flores e com as alfaias de prata da irmandade: castiçais, palmas, sacras e relicários. O coral já se acomodava lá no fundo da igreja, os músicos afinavam seus instrumentos, os coroinhas acendiam as velas dos altares laterais e o padre, na sacristia, já se vestia com os paramentos apropriados à ocasião. O prior da irmandade, contudo, aos berros e com largos gestos, andando marcialmente de um lado para outro do consistório, inquiria o sacristão:

“Os sinos!! Cadê os meninos???? Você não ajustou os meninos para a festa toda?????? Não ouvi os sinos nem às nove nem agora!!!!!!!! Cadê os meninos??????????” Sua ira aumentava a cada palavra proferida.

“Pois é... Num sei... Ajustei... Nem eu... Num sei...”, balbuciava, quase inaudivelmente, suando frio e cabisbaixo, o sacristão.

“O telefone não pára de tocar, tá todo mundo querendo confirmar a hora da missa!!!!!!!!!!!!”, bradou o prior, que se exaltava cada vez mais.

Com o intuito de fugir da fúria daquele homem que crescia diante dele e tendo plena consciência do motivo da ausência dos sineiros, o sacristão saiu para o jardim que ladeava a igreja. O sol já havia vencido a névoa matinal e o vento parara de soprar. Encostou-se então ao tronco de uma palmeira para se aquecer um pouco e, pensando no ocorrido, amaldiçoou os meninos até a sétima geração.

Porém, para surpresa sua viu surgir, no alto da escadaria que ligava a rua ao adro da igreja, e vindo em sua direção, os cinco meninos. Estes, ao passarem diante dele, espicharam-lhe o braço em que cada um deles segurava uma enorme coxinha e lhe disseram, acintosamente:

“Vai aí?”

“Tá servido?”

“Um pedacinho?”

“Quer uma mordida?”

“Aceita  um  bocadinho?”

 O sacristão, ainda atordoado com a gritaria do prior, não esboçou sequer reação verbal: permaneceu ali onde estava, boquiaberto, com o corpo não mais encostado, mas, sim, escorado à velha palmeira, seu olhar a acompanhar maquinalmente a meninada, que dele se distanciava, mordendo suas saborosas coxinhas douradas.

Araraquara, SP, 29.jun.2008


* Professor substituto do Departamento de Ciência da Informação da UFSCar.

** Graduando do curso de Gravura na Escola de Belas Artes da UFRJ.

       

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