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DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS LINGÜÍSTICOS  - DIALETO CAIPIRA

 

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SEMPRE A ORTOGRAFIA

Por Sírio Possenti (IEL-UNICAMP)

 

O acordo ortográfico, também referido como reforma, parece assunto inesgotável. Os jornais não o esquecem, entrevistam usuários, professores, pedagogos e outros interessados (supostamente) na escola. Querem saber se a reforma é boa ou ruim, se ajuda ou não ajuda e a quem ajuda ou desajuda. A meu ver, vai ser boa para as editoras, eventualmente. E prejudicará os consumidores, diria um liberal: se você acaba de comprar um dicionário e está interessado em saber como se escrevem as palavras, logo vai ter que comprar outro.

O argumento mais razoável a favor da reforma, que produzirá uma unificação quase total da grafia nos diversos países lusófonos, é exatamente a possibilidade de livros circularem mais facilmente. Livros brasileiros na África, no fundo é disso que se trata. Por isso Portugal resistiu mais que os outros países. O resto é simbólico, mas é importante dar-se conta de que os efeitos simbólicos são muito relevantes.

Quero comentar, sem mesmo entrar em muitos detalhes, uma das questões que tem surgido, a meu ver um tanto equivocadamente. Dou uma espécie de testemunho pessoal sobre ela. Procurado para duas ou três entrevistas, começava a conversa avisando que provavelmente teria pouco a dizer, porque não acompanhei o debate nem me interessei muito pela lista das mudanças.

Perguntado ou não, o que sempre fiz questão de dizer é que a reforma não aumenta em nada a capacidade de leitura de textos. Dito de outra maneira, fazer uma reforma porque ela facilitaria a leitura de livros brasileiros na África ou em Portugal é uma bobagem. Qualquer pessoa que saiba ler, mesmo precariamente, lê textos com a grafia de Portugal e do Brasil, assim como lê textos mais antigos e textos escolares, de alunos, por mais que apresentem problemas de grafia.

O principal argumento é que não é muito difícil ler qualquer texto todo “errado”. Vou apresentar alguns exemplos, com uma só finalidade: mostrar que obviamente podemos ler textos em grafias variadas. Não estou defendendo nenhuma das opções de grafia que aparecem nesses textos, muito menos dizendo que não deve haver regras ortográficas. Digo apenas que, com reforma ou sem reforma, e até mesmo sem regras ortográficas rígidas, nossa capacidade de ler um texto em qualquer das grafias existentes hoje (ou antigamente) não é afetada de forma relevante.

Começo minha listinha de exemplos com um texto de José Simão na Folha Ilustrada de 10/06/2008:

Carla Perez faz iscola! Governo de SP distribui livros com a palavra ensino grafada com C. ENCINO. Então toca os cinos! Rarará! C de Zé Cerra! Rarará! Serto ou herrado, o qui emporta, desdi qui a iscola seje iscrita com “i”!

Ilegível? Duvido!!!

Agora, mais ou menos na mesma toada, e certamente com os mesmos efeitos, menciono um trecho de redação de aluno da terceira série (publicado em Franchi, E. Redação na escola. S. Paulo, Martins Fontes):

Eu e o meu golega fomos pescar no riu comesou a puxar e ele viu e puxou e o ansol subiu na arvore para desenrosça e o ansol caio dreto no riu.

Certamente, o texto apresenta muitos problemas. Mas não o de ser ilegível. Tanto que qualquer um de nós saberia corrigir tudo, ou seja, todos sabemos qual é a palavra que se esconde “por detrás” da grafia com que o aluno a representou.

Finalmente, veja-se um texto bastante antigo, de 1189 (citado em Tarallo, F. Tempos lingüísticos. S. Paulo: Ática), certamente não na grafia da época, mas mais ou menos longe da atual:

No mundo nom me sei parelha

Mentre me for como me vay

Ca já moiro por vos – e ay!

Mia senhor branca e vermelha,

Queredes que vos retraya

Quando eu vus vi em saya!

Se não compreendemos alguma passagem do poema, isso não se deve à grafia, mas ao desconhecimento do sentido de algumas palavras (coisa que a reforma ortográfica não elimina, evidentemente). O que faz lembrar do óbvio: nos eventuais problemas de leitura de textos portugueses ou africanos passam fundamentalmente por questões lexicais.

Os exemplos poderiam ser multiplicados. Mas creio que bastam esses poucos, um pouco variados. Na verdade, talvez valha a pena acrescentar um texto experimental, para mostrar que não lemos letras e sílabas:

De aorcdo com uma peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo. 

Sohw de bloa!  

 
     

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