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REFLEXÕES SOBRE IDEOLOGIA EM PÊCHEUX E BAKHTIN: ESBOÇO DE UMA ANÁLISE COMPARATIVA

 

Pedro Guilherme O. Bombonato[1]

 

 

Introdução     

Neste artigo[2] de conclusão da disciplina de Análise do discurso[3], pensamos em desenvolver um trabalho que visasse à reflexão sobre o conceito de ideologia na teoria de Michel Pêcheux (aqui representada basicamente pela leitura do artigo O mecanismo do (des) conhecimento ideológico), e sua contribuição para a Análise do Discurso (AD) de linha francesa; assim como nos estudos de Mikhail Bakhtin, na Filosofia da Linguagem (tomando principalmente o livro Marxismo e filosofia da linguagem). Leituras como a do artigo de Louis Althusser, escrito em 1969-70, Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado, mostram-se como imprescindíveis para a fundamentação teórica deste projeto, visto que grande parte da influência teórica marxista em Pêcheux é baseada na leitura de Althusser sobre a obra de Marx.

Como objetivo principal, portanto, gostaríamos de esboçar uma pequena análise comparativa, com o intuito de refletirmos sobre alguns pontos em comum e outros contrastantes naquilo que concerne ao estudo da ideologia na obra de dois dos maiores teóricos da linguagem do século passado.

 

Pêcheux: leitura de Althusser e o (des) conhecimento ideológico

Ficam claras ao longo do texto de Pêcheux, as alusões quanto ao trabalho desenvolvido por Althusser, como podemos observar em trechos como: “Já aludi várias vezes à tese central de Althusser (...)” (PÊCHEUX, 1996, p. 146).

Althusser complementa a teoria marxista, na medida em que defende que há não só Aparelhos Repressivos de Estado, mas também o que ele chama de Aparelhos Ideológicos de Estado:

“(...) o exército, a polícia, os tribunais, os presídios etc, que constituem o que doravante denominaremos de Aparelho Repressivo de Estado. O ‘repressivo’ sugere que o Aparelho de Estado em questão ‘funciona pela violência’. (...) Daremos o nome de Aparelhos Ideológicos de Estado a um certo número de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas. (...); o AIE religioso (...); o AIE escolar (...)” (ALTHUSSER, 1996, p. 114)

Pêcheux, por sua vez, retoma o conceito de AIEs[4], para fixar o lugar da ideologia na construção de sua teoria do discurso. Para ele, o Aparelho Ideológico de Estado, não é a expressão da ideologia dominante (burguesa), mas o local e o meio para a realização desta dominação (PÊCHEUX, 1996, p. 144), ou seja, a ideologia dominante é propagada nos discursos das igrejas e escolas, com o intuito de interpelar os indivíduos como sujeitos, afim de “mascarar” – no sentido marxista do termo – a “realidade”, e dar continuidade à reprodução das condições de produção (ALTHUSSER, 1996); que sustenta a posição da classe dominante no sistema capitalista: “está claro que é nas formas e sob as formas da sujeição ideológica que se assegura a reprodução da qualificação da força de trabalho” (ALTHUSSER, 1996, p. 109).

O conceito de interpelação do sujeito pela ideologia - colocado por Althusser e retomado por Pêcheux – dialoga com a crítica de Bakhtin ao idealismo ou subjetivismo abstrato (BAKHTIN, 2007). Neste ponto, a convergência se dá no fato de que é impossível desconsiderar o ideológico e o histórico no estudo da linguagem, ou, mais especificamente, do discurso. O indivíduo está sempre inserido em uma determinada ideologia, portanto, se a ideologia faz dos indivíduos sujeitos, o indivíduo é sempre sujeito dentro da formação social em que está inserido. Ou seja, conscientemente, faz escolhas que são determinadas pelo horizonte social e ideológico de um tempo, de certa época, que resultou de movimentos sociais no decorrer da história, desencadeados pelas lutas de classe. Daí a comparação com as histórias do Barão de Münchhausen[5], e a crítica a uma concepção que define o sujeito pelo sujeito; o sujeito constituído por si próprio.

Cabe neste momento um trecho do texto de Althusser que Pêcheux retoma no decorrer de suas reflexões:

“Os lingüistas e os que recorrem à lingüística para vários fins deparam, freqüentemente, com dificuldades que surgem por eles desconhecerem a ação dos efeitos ideológicos em todos os discursos – até mesmo nos discursos científicos.” (ALTHUSSER, 1996, p. 141)

Este trecho é bastante rico, pois podemos traçar a partir dele uma linha de raciocínio e de diálogo – que é o objetivo basilar deste artigo – entre Pêcheux e Bakhtin. Ambos refutam a idéia de que a ideologia está no âmbito da psicologia dos povos ou do espírito do povo (BAKHTIN, 2006); ou – como chama Pêcheux, o espírito da época (PÊCHEUX, 1996). Isto é, para ambos, a ideologia deve ser tratada na materialidade, nos atos concretos de linguagem, na luta de classes; e como explicita Bakhtin, na interação social.

 

Bakhtin: Refração e reflexão nas infra e superestruturas

No texto de Althusser encontramos que, para Marx, a estrutura da sociedade está dividida em infra-estrutura e superestruturas. Fazem parte da primeira, as bases da economia do Estado capitalista, ou seja, “a ‘unidade’ das forças produtivas e das relações de produção” (ALTHUSSER, 1996, p. 109), enquanto que as superestruturas são formadas pelo direito e o Estado, formando o nível jurídico-político, enquanto que o nível ideológico (a ideologia), é representado pelos Aparelhos Ideológicos, como abordamos anteriormente. Mas como se dá a relação entre os níveis deste edifício[6]? As superestruturas refletem mecanicamente os acontecimentos das bases econômicas (infra-estrutura)? Estas foram algumas das perguntas que nortearam o pensamento de Bakhtin e seu Círculo acerca da teoria marxista:

“A queixa inicial era a de que a produção teórica marxista, até aquele momento, não havia colocado o problema do estudo da ideologia no lugar certo, o tinha tratado de forma mecanicista, ou seja, segundo Bakhtin e os membros de seu Círculo, os teóricos marxistas procuravam estabelecer uma ligação direta entre acontecimentos nas estruturas socioeconômicas e sua repercussão nas superestruturas ideológicas.” (MIOTELLO, 2007).

Bakhtin (Volochínov) inclusive, destina um capítulo inteiro, denominado Relação entre a Infra-estrutura e as Superestruturas, no livro Marxismo e Filosofia da Linguagem, com reflexões e caminhos para se pensar esta questão (superestruturas e infra-estrutura):

            “O problema da relação recíproca entre a infra-estrutura e as superestruturas (...) pode justamente ser esclarecido, em larga escala, pelo estudo do material verbal.

            De fato, a essência deste problema, naquilo que nos interessa, liga-se à questão de saber como a realidade (a infra-estrutura) determina o signo, como o signo reflete e refrata a realidade em transformação.” (BAKHTIN, 2007, p. 42)

Com estes dois parágrafos, Bakhtin nos mostra uma boa direção para pensarmos a relação entre as estruturas colocadas por Marx: através do signo ideológico. Para ele, todo signo é ideológico. “Sem signos não existe ideologia.” (BAKHTIN, 2007, p. 31). E complementa: “Um corpo físico vale por si próprio: não significa nada e coincide inteiramente com sua própria natureza. Neste caso, não se trata de ideologia.” (Idem). A partir do momento que este objeto passa a ter um significado externo à sua própria natureza, temos então o signo ideológico, que não só reflete a realidade material, como também a refrata. Dentro desta arena de luta de classes (BAKHTIN, 2007) há uma diversidade de significações ideológicas, isto é, pela interação social os signos mantêm-se vivos, trazendo com eles concepções de mundo diferentes, jogos de interesse antagônicos etc. Isso ajuda a compreender porque não se pode considerar as palavras (que são signos ideológicos por excelência, segundo a teoria bakhtiniana) como um simples reflexo, ou a representação pura da realidade material, mas sim como uma refração (ou refrações) desta realidade. A metáfora do espelho quebrado, distorcido.

Na mesma direção, o Círculo considera que ao mesmo tempo em que existe uma ideologia oficial “relativamente estável” (MIOTELLO, 2007, p. 168) e que se empenha em propagar uma concepção monológica de mundo, de uma perspectiva dominante – o Estado, através dos AIEs, por exemplo -,  há por outro lado, uma ideologia do cotidiano “considerada como a que (...) é constituída nos encontros casuais e fortuitos, (...) na proximidade social com as condições de produção e reprodução da vida.” (Idem, p. 169). Cotidiano e oficial numa relação intensa, num jogo ideológico interminável e regido pelas relações sociais.

 

Conclusão

Pêcheux e Bakhtin aproximam-se na medida em que consideram que a ideologia não está no nível do espírito dos povos. Ela é constituída a partir das lutas de classe, num processo histórico dialético. Podemos considerar que este é o principal ponto de aproximação entre as teorias. Porém, a questão do mecanicismo da passagem entre infra-estrutura e superestrutura parece ser uma questão pouco explorada ou contestada na teorização de Pêcheux, com relação às teses marxistas; o que o difere de Bakhtin, visto que este traz a abordagem dos conceitos de signo ideológico, o oficial e o cotidiano; como uma tentativa de ir além da teorização de Marx com relação à questão da ideologia, discutida no âmbito da linguagem.

 

 

Referências Bibliográficas

 

ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado: notas para uma investigação. In: ZIZEK, S. (Org.). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1966. p. 105-142.

 

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. 12. ed. São Paulo: Hucitec, 2006. 203 p.

 

CHAUÍ, M. O que é ideologia. 15. ed. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Primeiros Passos, v. 13).

 

MIOTELLO, V. Ideologia. In: BRAIT, B. (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2007. p. 167-176.

 

PÊCHEUX, M. O mecanismo do (des) conhecimento ideológico. In: ZIZEK, S. (Org.). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1966. p. 143-166.


 


[1] Graduando em Letras-Português/Inglês, Departamento de Letras, UFSCar, CEP.: 13.565-905, São Carlos-SP/Brasil. E-mail do autor: pguilherme71@hotmail.com

[2] Este artigo é também parte do desenvolvimento de um projeto de iniciação científica orientada pelo Prof. Dr Valdemir Miotello e financiada pelo CNPq. Ele também foi publicado em 2008 no livro Arenas de Bakhtin – linguagem e vida, pela Pedro & João Editores.

[3] Ministrada pelo Professor Dr. Roberto Leiser Baronas, pelo quinto semestre do curso de Letras.

[4] Utilizaremos AIEs como abreviação de Aparelhos Ideológicos de Estado, e AREs, como Aparelhos Repressivos de Estado.

[5] Trata-se, resumidamente, de um cavaleiro que cai em um pântano e tenta se reerguer pelos próprios cabelos. Esta história faz parte da compilação As aventuras do Barão de Münchhausen publicada por Rudolph Erich Raspe, na Inglaterra, no final do século XVIII. Fonte:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bar%C3%A3o_de_M%C3%BCnchhausen, acessado em 29/06/2008.

[6] Althusser utiliza a “metáfora do edifício” para exemplificar esta questão.

 

 

 

 

 

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