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DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS LINGÜÍSTICOS  - DIALETO CAIPIRA

 

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O FUNCIONAMENTO DÊITICO NA RELAÇÃO VERBO-VISUAL DAS CARICATURAS POLÍTICAS: POSSIBILIDADES 

Marcelo Silvestrin SIQUERI (UFMT)··

 

 

“Daqui não saio, daqui ninguém me tira...” [1]

Paquito e Romeu Gentil – (1950)

 

 

            Considerando que as caricaturas políticas trabalham com linguagens de diferentes sistemas semióticos, o que lhes permitem maiores possibilidades polissêmicas, pretendemos identificar e analisar alguns modos de funcionamento dêiticos, nos mecanismos de produção de sentido das caricaturas políticas, pressupondo que seu funcionamento regula a produção de sentidos instaurados pela relação verbo-visual, e, desse modo, contribui nos efeitos que o gênero está apto a produzir.

            Situamo-nos no lugar de observação da análise de discurso de orientação francesa (AD), para analisar 3 caricaturas políticas, das quais uma foi produzida em condições sócio-históricas distintas que as demais, no entanto, todas giram em torno de um mesmo dizer “realizado, possível ou imaginado”, atribuído às “vítimas” caricaturadas, que aludimos em nossa epígrafe: “daqui não saio”.

Este artigo concorre para dois fins que se complementam. O primeiro é refletir sobre um mecanismo semântico, os dêiticos, que regra as dimensões verbo-visual nas caricaturas políticas, ao mesmo tempo em que apresentamos uma proposta de análise para aplicação no processo ensino-aprendizagem do nível médio. O segundo, se refere ao fato de que pouco se tem produzido sobre caricaturas políticas numa perspectiva discursiva no Brasil e dessa forma, esperamos, mesmo que esquematicamente, contribuir para a discussão da AD enquanto um dispositivo teórico-metodológico que procura ler também as discursividades entre diferentes semióticas.

 

I – Da arte ao discurso.

 

            Nosso ponto de partida está amparado num trecho retirado da Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional (LDB), que preconiza o seguinte:

 

Em uma situação de ensino, a análise da origem de gêneros e tempos, no campo artístico, permite abordar a criação das estéticas que refletem, no texto, o contexto do campo de produção, as escolhas estilísticas, marcadas de acordo com as lutas dicursivas em jogo naquela época/local, ou seja, o caráter intertextual e intratextual. (p. 8)

 

            Trabalhar com caricatura, em princípio, supõe concebê-la em sua origem como um gênero artístico. O termo caricatura que vem do verbo italiano caricare e significa carregar, exagerar, acentuar, surgiu nos últimos anos do século XVI, como criação dos irmãos Carraci. Já no século XVII a caricatura adquiriu status de gênero de arte pelo crítico Filippo Baldinucci (1681 apud GOMBRICH, 1986, p. 300) que fez a seguinte definição:

 

Entre pintores e escultores, a palavra significa um método de fazer retratos no qual se procura o máximo de semelhança com o conjunto da pessoa retratada, enquanto que, por brincadeira e às vezes por zombaria, os defeitos dos traços copiados são exagerados e acentuados desproporcionalmente, de modo que, no todo, o retrato é o do modelo enquanto que seus componentes são mudados.

 

Contudo, mesmo sendo um gênero de arte, já podemos identificar a dêixis discursiva fundadora da caricatura uma vez que ela surge, rompendo com os procedimentos clássicos do belo, da “perfeição ideal” na produção de obras artísticas, marcando a crise dos valores renascentistas. Assim, a caricatura traduz uma ruptura na continuidade dos discursos. Da interpretação artística e da simples zombaria, a caricatura, a partir do século XVIII, adota métodos ideográficos, amparando-se num simbolismo pictórico para exercer uma forma de combate aberto à ordem constituída, em revistas e panfletos políticos. Na primeira metade do século XIX, por meio das revistas satíricas: La Caricature e Le Charivari, a caricatura política assinala sua aliança definitiva com a imprensa, segundo Belluzzo, (1991, p. 22).

            Assim, nesse breve histórico, podemos perceber a noção de caricatura política que estamos empregando. “Da anedota que se originou no atelier do artista, divulgada para diversão dos conhecidos do autor, a caricatura tornou-se uma arma social com a finalidade de desmascarar a pretensão dos poderosos”, de acordo com Kris (s/d, p. 147).

 

II – Do (inter) texto ao (inter)discurso: os dêiticos

 

            Preliminarmente, as caricaturas políticas podem ser concebidas como instrumentos de comunicação sócio-históricos constituídos, que invariavelmente podem e devem ser interpretadas simbolicamente a partir dos traços do seu contexto de produção. Mesmo uma “simples” caricatura retrato, se o modelo representado não for conhecido ela não produzirá os efeitos a que está apta a produzir. Isso implica que a caricatura política perde sua força de produzir sentidos ao se afastar do seu contexto de produção.

            Nisso reside o aspecto dialógico da caricatura. Pensamos que a caricatura reitera para a sua interpretação a constituição de um texto ausente. Isso significa dizer que a caricatura dialoga, para que possa se manifestar, nos seus mais diversos planos, com outros textos e discursos. Nesse sentido, podemos apontar um aspecto inerente às condições de produção da caricatura que ora analisamos, uma vez que, neste caso, ela pode ser considerada como a extensão da fala do caricaturado.

De acordo com Orlandi (1999, p. 30), “os dizeres são efeitos de sentido que são produzidos em condições determinadas e que estão de alguma forma presentes no modo como se diz”. Entendemos, dessa forma, que os efeitos de sentido colocam os dizeres em uma relação direta com sua exterioridade, ou seja, com suas condições de produção, e que os efeitos de sentido se relacionam com o modo pelo qual determinado dizer foi formulado em determinado lugar, com o implícito, com o que poderia ser dito e não foi.

            O texto na caricatura é aquilo que vemos: os desenhos, as expressões dos rostos das “vítimas” ou seus marcadores de expressão, os balões e as legendas, se entrelaçam em um ou em vários enunciados que não conseguimos seguir numa lógica de leitura, mas conseguimos interpretá-los simbolicamente.

            Esse conjunto de enunciados forma, então, um texto a partir de um “outro” primeiro, daquele quando a “vítima” da caricatura disse X numa determinada situação. Temos, portanto, dois textos. Contudo, há um ou vários discursos que atravessam tanto o primeiro quanto o segundo texto. Assim, se a vítima disse X numa determinada situação ela produziu efeitos de sentido. Ela produziu discursos. A caricatura, por sua vez, ao representar o texto primeiro, vai subvertê-lo e, assim, produzir outros discursos, outros efeitos de sentido.

Dessa forma é que entendemos que a relação de sentidos é determinada pelo funcionamento das condições de produção. Por esse ângulo, não há discurso que não se relacione com outros. De acordo com Orlandi (1999, p. 39) “um dizer tem relação com outros dizeres realizados, imaginados ou possíveis”. Assim, dizemos que, se por um lado a interdiscursividade é a relação de um discurso com outros, por outro, a intertextualidade é a relação de um texto com outros.

            Numa perspectiva textual, podemos sugerir que a caricatura serve como ponte entre outros textos, mas no atravessamento desses textos, o que poderíamos conceber como intertextualidade, ela produz uma subversão, uma amplificação ou simplificação, como produto dessa intertextualidade. Ao subverter um texto qualquer a caricatura reflete sentidos outros deste mesmo texto. Assim, numa perspectiva discursiva, podemos sugerir, pois, que as caricaturas funcionam como pontes discursivas que permitem o atravessamento de discursos polêmicos[2], produzindo, ela mesma, outro(s) discurso(s). Ou ainda, podemos sugerir que as caricaturas funcionam como uma “língua” especular que reflete e refrata discurso(s).

            Há que se ressaltar, porém, que as caricaturas estão legitimadas a dizer ou mostrar o que não seria permitido em outros gêneros. Disso, decorrem duas considerações: o fato de elas mobilizarem diferentes sistemas semióticos possibilita-lhes mostrar ou dizer, sem de fato tê-los feito; e, ainda, o fato de pertencerem ao espaço do discurso humorístico autoriza-lhes a mostrar ou dizer o interdito sob as vestes do humor. Logo, ao pensarmos a caricatura política, esta pressupõe um modo próprio de significar, bem como, uma materialidade significante que se difere da língua. Portanto, se há um acordo que cada texto tem sua maneira peculiar de produzir sentidos, a caricatura política, vai ter ainda a diferença de produzir sentidos entre diferentes sistemas semióticos.

Com base nisso, pressupomos que os dêiticos funcionam nas caricaturas políticas como índices que contribuem nessas implicações, funcionando como um elemento conectivo na relação verbo-visual, marcando o(s) discurso(s) dos sujeitos no texto caricatural, numa relação espaço temporal.

            Segundo Maingueneau (1989, p.41), “na língua, a ‘dêixis’ define as coordenadas espaço-temporais implicadas em um ato de enunciação, ou seja, o conjunto de referências articuladas pelo triângulo: Eu « tu – Aqui « agora”.

            Para que a caricatura política possa preservar o distanciamento dessa relação eu virtual e tu virtual em sua cena enunciativa, o sujeito caricaturista é levado a introduzir índices de distanciamento. Os índices de distanciamento que ocorre pela imagem na caricaturas podem ser facilmente reconhecidos em alguns mecanismos de representação, na qual a cabeça da “vítima” vem justaposta ao corpo de um animal, ao do asno, por exemplo. Esse modo de dizer, contudo, é legitimado pela própria caricatura, o que implica dizer que é possível a ocorrência dessa formação discursiva no espaço da caricatura, sem que o sujeito caricaturista possa sofrer algum ação indenizável por danos morais. 

No entanto, pressupomos que os signos lingüísticos, que se manifestam nas caricaturas por meio de legendas e balões, podem assumir de igual modo índices de distanciamento, mas para que possam legitimar-se, precisam dizer sem tê-lo feito. Neste sentido, se o sujeito caricaturista escrever no chapéu da “vítima” caricaturada a palavra “burro”, possivelmente estaria mais vulnerável à uma ação por danos morais.

Desse modo, os dêiticos podem ser usados para traduzir imagens, remetendo a sentidos negativos, bem como, para caracterizar pessoa, tempo e lugar na língua especular da caricatura que reflete e refrata discursos. A função referencial exercida pelos dêiticos, nas caricaturas políticas, permitem a identificação de referentes, mas também podemos encontrar neles marcas de subjetividade que se manifestam implícita ou explicitamente, que vai operando nos discursos produzidos.

                    

III - Dos dêiticos às análises.

 

De acordo com Duprat (2001, p. 27), para “compreender o sabor do desenho, é necessário conhecer as circunstâncias da sua criação”.

 

Ilustração 1 - Daqui não saio - Hilde Weber Tribuna da Imprensa – 13.08.1954

 

            No dia anterior à publicação desta caricatura, Carlos Lacerda, dono do jornal, escreveu o editorial sugerindo que os militares exigissem a renúncia do Presidente Getúlio Vargas, reverberando a crise que o levaria ao suicídio no dia 24 de agosto daquele mesmo ano. Havia Acusações de crimes graves, como homicídio e corrupção.

Podemos destacar a imagem de Getúlio Vargas, sentado na cadeira da presidência da República, que arde em fogo. Numa atitude de resistência, o presidente sustenta seu dizer: “Daqui não saio...”, produzindo discursos de luta pelo poder político, nos tempos da República. O dêitico daqui pressupõe o lugar de onde falante se encontra e marca sua distância do referido local. Assim, supomos que a fala está sendo proferida por Getúlio que se encontra no poder. Logo, a poltrona representa o poder.

A partir dos dizeres atribuídos à vítima, podemos elaborar uma questão: porque sua fala surge em forma de legenda e não em forma de balão. Pudemos, constatar que as caricaturas da época já se utilizavam de formas estilísticas de balões para darem vida aos seus modelos. Isso poderia implicar numa heterogeneidade constitutiva, já que a legenda seria um mecanismo das caricaturas marcadamente para fazer falar a voz do sujeito caricaturista. No entanto, os dêiticos “daqui” e “eu”, embutido na forma verbal “saio”, apontam para os possíveis dizeres da vítima caricaturada, que, por sua vez, poderiam ter sido proferidos no contexto das condições de produção da caricatura. Nesse sentido, legendas e balões poderiam ser reconhecidos como marcas de subjetividade nas caricaturas políticas.

O dêitico "daqui" pode indicar espaço e tempo, e o dêitico "eu" indica pessoa, que cooperam na produção de sentidos na sua relação com o imagético. Interessante notar que ambos, verbal e visual, estabelecem uma sintonia nos sentidos vinculados às condições de produção. Assim, se trocássemos os dizeres da vítima, por este: “daqui não me levanto”, possivelmente a caricatura manteria uma “coerência” entre o verbal e imagético, mas não com o contexto das condições de produção, pois estaria restringindo os sentidos ao ato de se levantar.

Nota-se, portanto, que o dêitico “daqui” produz uma ambigüidade de espaços, pois ao mesmo tempo em que se refere à poltrona, se refere ao sistema republicano da época, ao poder. Além disso, o mesmo dêitico, ao jogar com os sentidos produzidos pela poltrona em chamas, marca, de certo modo, uma implicitude de tempo, que pode produzir sentidos do fim da República, marcando uma duração. Aliás, o fogo nos remete a formações discursivas de destruição e de purificação, e estando esses sentidos associados à poltrona, como símbolo do poder, a caricatura produz discursos da vítima de morrer pelo poder, lugar que deixaria dias depois com o seu suicídio.

            O dêitico "daqui", portanto, funciona na produção de sentidos, como índice de referência ambígua, pois, se refere tanto à poltrona, quanto ao sistema da época, à República. Nota-se a necessidade do conhecimento do contexto de produção da caricatura, para identificar lugar e pessoa aos quais os dêiticos "daqui" e "eu" se referem.  

São, pois, as condições de produção, os esclarecimentos de seu contexto de produção que nos permite associar a poltrona ao poder, à República, e o fogo, à destruição ou purificação, estabelecendo um marco final daquele poder. Diz-se de destruir um sistema instituído ou purifícá-lo, dizendo de sua impureza. Esses aspectos nos levam aos atos de corrupção vinculados ao poder.

Daqui eu não saio, reforça os sentidos produzidos pelas imagens. Há uma desqualificação da vítima, se considerarmos o tamanho da poltrona e o tamanho da vítima, a partir dos quais nos é sugerido que o governante caricaturado não tem "tamanho", não tem "altura" para ocupar tal lugar,  o poder. Esses sentidos se relacionam com o aspecto psicológico da vítima, que se mostra irredutível a deixar o poder, a poltrona praticamente em chamas. O dêitico "daqui" ao ter como referente a poltrona em chamas, produz sentidos de que a República está em destruição, e o dêitico "eu" se refere à Getúlio Vargas, produz sentidos de morrer pela República.

Contudo, não são os discursos de morrer pela República que a caricatura pretende focalizar, mas esse discurso diante do contraste visível do tamanho da poltrona republicana e o tamanho da vítima. Essa desproporção produz sentidos de que o tamanho do ocupante da poltrona, Getúlio Vargas, é menor do que o tamanho do poder que ocupa. Assim, não está a “altura” do poder e, portanto, não cabe no lugar em que se encontra.

Além disso, podemos identificar outra forma de desqualificação que ocorre pelo formato da cabeça do caricaturado, em forma de cebola, com seus poucos cabelos arrebitados. Isso nos leva à representação da famosa Poire[1], na qual Luis Philipon caricaturou a cabeça do Rei Luís Felipe no formato de uma pêra.

Diante disso, podemos sugerir que os dêiticos assumem importantes papéis na construção dos sentidos diante da relação verbo-visual das caricaturas. Neste caso, dêiticos funcionam como índices de referências Os dêiticos podem ser indicadores referenciais que remetem a um referente que não se acha representado na caricatura. e implicitude, gerando uma “ambigüidade” regrada. Aliás, a ambigüidade, diferentemente dos textos verbais, é reiterada como uma das estratégias na produção do humor.

            O mesmo enunciado “daqui não saio” pode ser encontrado em uma caricatura política, produzida depois de 50 anos. Trata-se de Severino Cavalcanti, que, do mesmo modo, não queria deixar o poder. O que notamos é que a poltrona joga no processo da interdiscursividade e ativa pela memória discursiva o poder.

A próxima caricatura tem como pano de fundo o escândalo do mensalinho, a partir do qual a vítima disse que não deixaria o poder. Interessante notar o poder que a imagem tem de perpetuar suas significações. A poltrona, na qual a vítima se encontra acorrentada, é da mesma forma que na caricatura analisada anteriormente, o símbolo do poder.

 

Ilustração 2 - Clayton - opovo.com.br - 13.09.2005

 

Há um paradoxo aqui, ao mesmo tempo em que as imagens são mais polissêmicas do que a linguagem verbal, elas cristalizam sentidos que elas conotam perpetuam por mais tempo do que a linguagem verbal.

Notamos que o dêitico nessa caricatura ocorre pela junção do verbo-visual. A placa sobre a mesa, que diz presidência da câmara, pode ser concebida como um dêitico, pois ela sinaliza que aquele lugar, a poltrona no qual a vítima aparece acorrentada, se refere à Câmara e, que por sua vez, a vítima por se situar naquele lugar é identificada como o presidente. Notamos, que o dêitico, neste caso, indica lugar e pessoa ao mesmo tempo.

Assim, essa manifestação dêitica, funciona o um índice distintivo, enfatizando que aquela mesa é a mesa do poder, pela qual a vítima prende-se a si própria por uma corrente com cadeados. O enunciado que mostra a vítima ao engolir a chave suscita uma interdiscurividade que nos ativa pela memória discursiva. Guardar algo muito importante, que ninguém poderia imaginar. Isso acentua o caráter psicológico ridículo que os sentidos tentam denunciar.

Afinal, quem engoliria uma chave, somente Severino. As correntes nos remetem a discursos pertencentes a formações discursivas de escravidão. Nota-se que são correntes que a vítima escolhe e não cordas. As correntes são mais resistentes.

Contudo, esses discursos de resistência acentuam o caráter psicológico da vítima, para mostrar o seu ridículo, remetendo-nos a formações discursivas de insanidade mental. As correntes produzem efeitos de sentidos de “camisa de força”, comumente utilizadas por sujeitos que representam perigo à sociedade. Esses sentidos são reiterados pela atitude da vítima de "engolir" a chave, discursos legitimados à própria vítima. Ao mesmo tempo em que se mostra irredutível a deixar o poder, o sujeito caricaturista ridiculariza a vítima baseando-se em seu discurso insano, mostrando-o como um louco, perigoso, amarrado. Com base nessas duas análises, poderíamos pensar numa interdiscursividade antagônica: aquela que marcou historicamente o “dia do fico”. Mas ficaremos por aqui.

 

Ilustração 3 - Aroeira do jornal odia - 13/09/05

 

A caricatura, ao lado, foi produzida no mesmo contexto de produção da caricatura anterior e traz o mesmo enunciado que a própria vítima, o então ex-presidente da câmara dos deputados, Severino Cavalcanti, enunciou.

Assim, sua fala: “não saio, não renuncio, não me licencio”, se constitui a partir de um discurso primeiro, aquele no qual a “vítima” se insere, constituindo a enunciação conhecida por todos, da resistência, definitiva ou temporária, demonstrada diante da possível situação de renúncia ao cargo de presidente da câmara, por estar envolvido no escândalo do mensalinho, propina recebida por Severino Cavalcanti do dono de um restaurante que funciona na Câmara dos Deputados.

Podemos identificar um jogo polifônico de vozes que se constituem em heterogeneidade mostrada marcada: a voz do sujeito caricaturista, a voz da vítima e, porque não considerar, a onomatopaica do asno, já que estamos considerando uma linguagem peculiar que se manifesta neste tipo de texto.

A partir dessas vozes, podemos identificar o dêitico “isso” marcado pela voz do sujeito caricaturista e o dêitico “eu” embutido nos verbos: saio, renuncio e licencio. O primeiro se manifesta como marca da preservação e distinção da identidade do sujeito que enuncia em relação à vítima. Ele indica uma posição enunciativa de distância e adversidade em relação ao objeto do seu discurso. O dêitico “eu” joga na relação intersemiótica que se estabelece entre a posição corpórea do asno e a onomatopaica Hi.ho, criando uma ambigüidade na indicação dos seus referentes.

O que nos chama a atenção é o fato de que o dêitico “isso” pode gerar uma certa ambigüidade na indicação do seu referente, já que poderia apontar para uma “teimosia” de Severino, do asno ou, ainda, de ambos. A ambigüidade dos sentidos é outro mecanismo presente nas caricaturas que pode se manifestar pelos dêiticos. Além disso, o dêitico “isso”, neste caso, pode funcionar como um apontar de dedos, preservando o sujeito que produziu a caricatura de uma indenização por danos morais, pois, o enunciado “isso quando empaca” produz sentidos ao ser substituído pelo já-dito “burro quando empaca”.

            Assim, o dêitico “isso” tem seu equivalente em “burro”. No caso de Severino, que se mostra inflexível em abandonar o poder, o sujeito caricaturista se apropria do enunciado de Severino para produzir um discurso derrisório, produzindo sentidos de que o ex-presidente da câmara é “isso”. Está mesmo aqui a nossa dificuldade em dizer o indizível, pois não está sendo dito e, assim, será de nossa responsabilidade formular verbalmente qualquer discurso.

 

(In)Conclusões preliminares

           

Com base nas análises podemos prever de antemão que o trabalho com caricatura política possibilita uma reflexão interdisciplinar entre os campos da linguagem, da história e da arte.

A caricatura política dialoga com textos e discursos ausentes. Traz em sua materialidade significante fragmentos destes textos e discursos, os quais precisam ser situados a partir da enunciação em que foi proferido, para que esteja apta a produzir os efeitos de sentido a ela autorizados: qualificar sua vítima, desqualificando-a. Nesse sentido, a caricatura pode definir seu modo de coexistência com outros discursos.

Sabemos que as caricaturas perdem sua força de significação quanto mais se distanciam de suas condições de produções. Isso se dá porque o jogo instituído pela relação verbo-visual reitera sempre um texto ausente, aquele pertencente às suas condições de produção. Nesse sentido, podemos sugerir que os dêiticos contribuem na produção dos sentidos, diminuindo o espaço simbólico que separa as condições de produção e a própria caricatura, se notarmos as pistas dêiticas sinalizadas pela “placa com a inscrição ‘presidente da câmara’”, na segunda caricatura analisada.

 Embora, considerando que as legendas sejam marcas da voz do sujeito caricaturista e os balões sejam marcas da voz da vítima, a primeira caricatura permite, por meio dos dêiticos, assinalar a voz da vítima, mesmo aparecendo em forma de legenda.

Podemos notar que os dêiticos assumem uma função específica nas caricaturas, sob a perspectiva da derrisão. Eles poderiam ser sugeridos como marcas de equivalência de sentidos, isentando o sujeito de uma ação indenizatória por danos morais. Assim, o dêitico "isso" na análise da terceira caricatura pode ser traduzido simbolicamente como "burro". Essa substituição não comprometeria a estrutura da caricatura, ao contrário estaria explicitando, ainda mais, uma interdiscursividade, que pelo fio da memória discursiva nos remeteria à "burro quando empaca". Contudo, há modos de dizer nas caricaturas e leis que lhes são internas. O termo “burro”, explicitado na caricatura política, pode levar o sujeito caricaturista a uma ação indenizatória por danos morais. 

Concluímos, preliminarmente, que os dêiticos jogam e assumem papéis interessantes na construção dos sentidos, minimizando o espaço simbólico que separa as caricaturas de suas condições de produção, podem remeter, apontar para pessoas, lugares e tempos distintos onde os referentes devem ser “localizados” pelo público leitor e, por fim, podem apontar o dedo, funcionando como índices de ambigüidades regradas, isentando o sujeito caricaturista de ser responsabilizado pelo que “não disse”.

 

Referências bibliográficas

 

BELLUZZO, A. M. de M.. Voltolino e as raízes do Modernismo. São Paulo, SP: Editora Marco Zero em co-edição com o Programa Nacional do Centenário da República e Bicentenário da Inconfidência Mineira MCT/Cnpq e Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, 1991

 

GOMBRICH, E. H. Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica. Trad. Raul de Sá Barbosa. Martins Fontes. São Paulo: 1986, 1 ª ed.

 

KRIS, Ernst. Psicanálise da arte. Trad. Marcelo Corção. São Paulo: Editora Brasiliense, s/d.

 

Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB – Lei 9.394, de 20.12.1996

 

MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. Trad. Freda Indursky. Campinas: Pontes, 1989.

 

_______. Gênese dos discursos. Trad. Sírio Possenti. Curitiba, PR: Criar Editora., 2005.

 

ORLANDI, Eni P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 1999.

 


[1] Caricatura política que Luís Philipon fez do Rei Luís Felipe, transformando sua cabeça em uma pêra, que na gíria em francês significa imbecil, tolo.

 


··Mestre em Estudos de Linguagens – MeEL - pela Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. E-mail: siqueri@terra.com.br

[1] Trecho da letra da marchinha de carnaval “Daqui Não Saio”.

[2] Utilizamos o sentido de polêmica atribuída por Maingueneau (2005, p. 114). Para o autor, polemizar “é, sobretudo, apanhar publicamente um erro, colocar o adversário em situação de infração em relação a uma Lei que se impõe como incontestável”.

 

 

 

 

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