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IDEOLOGIA E LIVRO DIDÁTICO:

A POLÊMICA DE NOVA HISTÓRIA CRÍTICA

 

 

Danielle BARETTA[1]

 

Introdução:

            O livro didático, pensado inicialmente para ser um complemento aos livros tradicionais, ganhou um importante espaço dentro do ambiente escolar como organizador dos conteúdos, da metodologia e da avaliação.

            Em função disso, muito se tem discutido sobre as qualidades que deve ter o material que orienta o processo educativo na maioria das escolas brasileiras. Ser claro, preciso, transparente e neutro são características atribuídas a um material didático de qualidade. No entanto, como produto de uma sociedade que se estrutura a partir de uma determinada ideologia[2], até que ponto pode um livro didático ser neutro? O que consideramos um livro neutro e um livro ideológico?        

            Desse modo, o objetivo desse trabalho é discutir, por meio de conceitos fundamentais que norteiam os estudos da linguagem dentro da perspectiva da Análise do Discurso, a presença da ideologia nos livros didáticos através da análise de uma imagem que surge de uma polêmica a respeito da coleção didática Nova História Crítica, de Mario Schmidt. Analisaremos as relações interdiscursivas entre os elementos verbais e não-verbais presentes na materialidade do discurso que possibilitam a produção de efeitos de sentidos que visam à tomada de um posicionamento por parte do interlocutor. A argumentação se estabelece no sentido de demonstrar que nenhum discurso é neutro e que os efeitos de sentido que produzimos estão atrelados ao contexto sócio-histórico e ideológico a que pertencemos.

 

Metodologia: Paradigma Indiciário e Análise do Discurso

            A proposta de interpretação aqui apresentada ampara-se no modelo epistemológico discutido por Ginzburg (1989), denominado paradigma indiciário, e tem como método de análise os pressupostos teóricos com os quais trabalha a Análise do Discurso na vertente proposta por Michel Pêcheux e Eni Orlandi.

            No texto Sinais: raízes de um paradigma indiciário (1989), o italiano Carlo Ginzburg comenta a respeito da construção de um paradigma no campo das Ciências Humanas. Baseado no trabalho de Ivan Lermolieff, pseudônimo do crítico de arte Giovanni Morelli, que estabelecia orientações metodológicas para a análise de pinturas, Ginzburg discorre sobre o paradigma indiciário[3].

            O método de Morelli para distinguir as obras originais das suas cópias ancorava-se no pressuposto de que “é preciso não se basear, como normalmente se faz, em características mais vistosas, portanto mais facilmente imitáveis dos quadros” (GINZBURG, 1989, p. 144), mas fixar-se nos indícios, “os pormenores mais negligenciáveis e menos influenciados pelas características da escola a que o pintor pertencia” (op. cit). Partindo dessas considerações, Ginzburg aponta semelhanças entre o método indiciário de Morelli, a postura detetivesca do personagem Sherlock Holmes, do escritor Arthur Conan Doyle, e o método de análise interpretativa da psique utilizado por Freud.

            Segundo Ginzburg, o elemento que liga os três intelectuais é o pressuposto de que, quanto mais atento estiver o investigador aos sinais ou pistas deixados pelo seu objeto, maior será a possibilidade de esclarecimentos em torno da problemática estabelecida, independentemente do campo de atuação. Assim, na psique, os sinais ou pistas são entendidos como sintomas; na criminologia, indícios; e na arte, signos pictóricos.

            Com base no modelo discutido por Ginzburg, a análise aqui proposta busca investigar os sinais impressos na materialidade do discurso, que permitem a produção de determinados efeitos de sentido[4] através de gestos de interpretação.

            Considerando-se o quadro teórico da Análise do Discurso, os efeitos de sentido dependem das condições de sua produção[5] e é a partir dessas condições que os sinais presentes no discurso devem ser analisados. Para a Análise do Discurso, o sujeito é constituído pela linguagem, e a linguagem que o constituiu é a linguagem da sua sociedade, da sua história, determinadas ideologicamente. Segundo Eni Orlandi (1996), diante de um objeto simbólico, o sujeito faz gestos de interpretação[6], atribuindo-lhe sentidos. Esses gestos de interpretação não são conscientes, estão ancorados a discursos anteriores. Ao fazer gestos de interpretação, o sujeito produz efeitos de sentido a partir de sua formação discursiva[7], ou seja, da posição-sujeito que ocupa. Isso quer dizer que os objetos simbólicos, verbais ou não-verbais, não são transparentes, não possuem sentido em si mesmos. Eles produzem sentidos a partir das condições de produção.

 

As condições de produção: a polêmica do livro didático

            A coleção de livros didáticos Nova História Crítica (1995), do historiador Mario Schmidt, publicada pela editora Nova Geração, destinada a alunos do ensino fundamental, fazia, até pouco tempo atrás, parte da relação de livros recomendados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). Livro de enorme sucesso, a coleção tem sido uma das mais escolhidas pelos professores brasileiros e, durante algum tempo, foi distribuída em grande quantidade e gratuitamente a escolas públicas de ensino fundamental de todo Brasil.

            O livro, porém, foi excluído do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) após a publicação, no jornal O Globo, em setembro de 2007, do artigo O que ensinam às nossas crianças?, de autoria de Ali Kamel, no qual o jornalista faz contundentes críticas à publicação, alegando que o livro apresenta erros conceituais, falhas de informação e incoerência metodológica. Além disso, Kamel afirma que o material faz apologia ao socialismo e enaltece líderes comunistas como Mao-Tsé-Tung e Fidel Castro. O jornalista encerra seu artigo dizendo que a coleção de Mario Schmidt tenta fazer uma “lavagem cerebral” nos estudantes e faz um apelo, incitando as autoridades a dificultarem o acesso ao livro.

            O artigo de Kamel e o veto ao livro por parte do MEC provocaram diferentes reações veiculadas na Internet e na mídia em geral. Estudiosos, pais, professores, políticos e jornalistas posicionaram-se a respeito da polêmica, em alguns casos concordando com as afirmações de que a coleção didática veicula propaganda comunista, em outros, contra-argumentando que o material apresenta os fatos históricos de forma crítica, clara e acessível ao público a que se destina. O próprio autor dos livros, Mario Schmidt, juntamente com a editora responsável pela publicação da coleção, divulgou um artigo em resposta às críticas sofridas, intitulado O livro didático que a Globo quer proibir. Nele, o historiador afirma que a proposta do material didático não é de que os estudantes adotem um determinado posicionamento ideológico, mas de que assumam uma postura crítica com relação aos fatos históricos. O artigo ainda acusa Kamel de citar trechos do livro isolados de seu contexto, na tentativa de fazer com que a série pareça um “manual de catecismo marxista” e de omitir passagens nas quais o autor aponta falhas do regime socialista. Ao final de seu texto, Schmidt insinua que a postura de Kamel traz à tona períodos de censura, como o dos campos de concentração nazistas e do regime ditatorial de 1964.

 

Ideologia e livro didático: a grande queima de livros

            Nesse capítulo, analisaremos a imagem intitulada Grande queima de livros didáticos do professor Mario Schmidt (ver ANEXO), produzida a partir da polêmica a respeito da ideologia presente na coleção didática Nova História Crítica, de Mario Schmidt.

            Ao visualizá-la, nos perguntamos: De que lado da disputa está essa imagem? Ela faz uma crítica a Ali Kamel ou a Mario Schmidt?

            Para responder a essas perguntas, vamos observá-la mais detalhadamente. Trata-se de uma espécie de cartaz no qual a editora Nova Geração, responsável pela publicação da obra de Mario Schmidt, convida o interlocutor a participar de uma queima coletiva dos livros da coleção do historiador. Apesar disso, ao visualizarmos a imagem, o gesto de interpretação que realizamos nos leva a entendê-la como uma crítica ao posicionamento do jornalista Ali Kamel. Por que isso acontece?

            Na imagem há uma série de elementos, de indícios que, juntos, nos permitem produzir esse efeito de sentido, ainda que, aparentemente, esteja incitando-nos a queimar os livros da coleção mencionada.

 

a) as cores e as formas geométricas

            Eliminando as imagens que se sobrepõem, temos um fundo vermelho com um círculo branco no centro. Pensando em termos de interdiscurso[8], isto é, dos discursos anteriores que permitem que objetos simbólicos produzam determinados efeitos de sentido, nos perguntamos: Que objeto simbólico nos permite realizar um gesto de interpretação, quando encontramos a cor vermelha associada a um círculo branco, remetendo-nos a uma determinada ideologia? A resposta é imediata: o símbolo do nazismo, a suástica.

            A escolha da cor vermelha e das formas geométricas não ocorre ao acaso. Na imagem em questão, a junção desses elementos com outros que analisaremos em seguida busca associar a crítica realizada por Kamel a procedimentos nazistas, na tentativa de fazer com que o interlocutor adote um posicionamento contrário aos argumentos apresentados pelo jornalista.

 

b) os dizeres no centro da imagem

            No centro do círculo branco há os dizeres “Grande Queima de Livros Didáticos do Prof. Mario Schmidt”. A expressão “grande queima de livros”, bücherverbrennung em alemão, refere-se à queima oficial dos livros antiarianos (como foram definidos pelo Partido Nazista), realizada na Alemanha no dia 10 de maio de 1933, logo após Hitler assumir o poder. Outro aspecto importante é a escolha da fonte na qual a frase está impressa: a letra gótica. A escolha dessa fonte não é aleatória e, nesse contexto, é bastante significativa. Durante a guerra, Hitler impôs o uso obrigatório do alfabeto gótico na Alemanha, que, por isso, adquiriu uma conotação política.

            Além disso, a expressão apresentada na imagem nos remete a outra muito comum em nosso cotidiano: “grande queima de estoque”. Esses dizeres, estampados em vitrines de lojas do mundo todo, fazem referência ao consumismo próprio do regime capitalista. Na imagem, a inserção da expressão é mais um recurso que aproxima o capitalismo, regime defendido por Kamel, ao nazismo.

 

c) a imagem da queima dos livros

          A comparação estabelecida entre o nazismo e as críticas veiculadas por Kamel culmina na imagem de uma das queimas de livros realizadas na Alemanha durante o período nazista. Nela, foi feita uma montagem na qual aparecem membros da diretoria nacional dos estudantes alemães e da Juventude Hitlerista, executantes responsáveis pela queima dos livros de 1933, queimando livros da coleção do professor Mario Schmidt.

            A crítica estabelecida aqui é bastante clara: os estudantes que Kamel e seus seguidores querem em nossas escolas são estudantes como os da época do regime nazista, que queimam e censuram livros que não se enquadram na ideologia que defendem.

 

d) o trecho do artigo de Ali Kamel

            Em Os Aparelhos Ideológicos do Estado (1989), Althusser discorre a respeito da estabilização da ideologia da classe dominante. Para o autor, essa estabilização se dá através dos aparelhos ideológicos do Estado, isto é, das instituições sociais que disseminam a ideologia dominante, assegurando, dessa forma, sua perpetuação no poder. Entre esses aparelhos ideológicos estão, além da família e da mídia, a escola e, conseqüentemente, o livro didático, que é um dos responsáveis por regular, dentro do ambiente escolar, o que é possível ou não ser dito. Assim, é impossível pensarmos em uma neutralidade por parte do livro didático. Como produto social, ele é na sua gênese impregnado de ideologia e, como produto escolar, tem a função de manter as relações sociais e estabilizar a ideologia que representa.

            O trecho do artigo de Kamel corrobora as idéias levantadas por Althusser, pois como representante de um aparelho ideológico do Estado, a mídia (Ali Kamel é jornalista das Organizações Globo), ele assume uma posição contrária à inclusão de um livro didático que apresenta uma ideologia diferente daquela dominante na sociedade brasileira capitalista. No trecho em questão, o jornalista faz um apelo, incitando os aparelhos ideológicos do Estado a cumprirem sua função de estabilizar a ideologia vigente, não permitindo que outra ideologia circule dentro da escola por meio de um livro didático, o que reforça a noção de não-neutralidade do livro didático.

            Desse modo, a inclusão desse trecho na imagem faz mais uma referência à censura estabelecida pela crítica de Kamel: nossas crianças estão sendo enganadas quando lhes mostramos diferentes pontos de vista sobre um determinado assunto ou quando decidimos o que podem ou não podem ler, o que podem ou não podem pensar?

 

Considerações Finais

            Depois de ser considerado, durante anos, uma produção intelectual de menor prestígio, o livro didático passou a despertar o interesse de pesquisadores nas últimas décadas e tem gerado inúmeras polêmicas e críticas de muitos setores da sociedade.

            Uma das críticas que comumente se faz ao livro didático é a da veiculação ideológica. O livro didático é entendido como um dos principais meios de organização e apresentação dos conteúdos, do saber acadêmico que deve ser transmitido aos alunos. Em função disso, é comum pensar-se que esses conteúdos devam ser transmitidos de forma transparente e sem posicionamentos de qualquer tipo. Contudo, o livro didático não pode ser entendido fora de seu contexto social. Ele é, na verdade, um produto cultural produzido segundo as normas, a lógica e a ideologia da sociedade em que está inserido. O discurso é o lugar de encontro entre a língua, a história e a ideologia. O livro didático, como produto discursivo, é uma forma de materialização de uma determinada ideologia. Não há neutralidade no discurso. Falamos a partir da ideologia na qual nos inserimos como sujeitos discursivos[9]. A suposta neutralidade do livro didático ocorre porque não reconhecemos os traços dos discursos que integram nossa formação discursiva. É o que Pêcheux (1975) chama de esquecimento número um ou esquecimento ideológico. Temos a ilusão de que somos a origem do que dizemos, quando, na verdade, estamos retomando sentidos já existentes. Essa é a forma como a ideologia nos afeta, apagando as vozes que nos constituem histórica e ideologicamente. No entanto, reconhecemos claramente uma ideologia que não nos forma discursivamente. A evidência se dá no discurso do outro.

            A crítica ao livro de Mario Schmidt foi feita em função dessa premissa. Ao assumir um posicionamento ideológico que demonstra simpatia às idéias socialistas, o material didático choca a sociedade brasileira capitalista. Há um conflito gerado a partir de posições discursivas distanciadas pela ideologia, fruto de espaços de enunciação[10] diferentes.

            Na imagem analisada, para invalidar a crítica feita ao livro, busca-se uma aproximação a uma ideologia, o nazismo, que entra em conflito com a ideologia da sociedade brasileira, com o objetivo de novamente chocar o interlocutor, fazendo-o questionar-se sobre a validade das críticas levantadas contra o livro didático.

 

Referências Bibliográficas

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos do Estado. Rio de Janeiro, Graal, 1989.

 

GINZBURG, Carlo. Sinais: Raízes de um paradigma indiciário. In: _________ Mitos, emblemas, sinais: Morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, pp. 143 – 180.

 

KAMEL, Ali. O que ensinam às nossas crianças? In: O Globo. São Paulo, p. 7, 18 set. 2007.

 

ORLANDI, Eni. Interpretação: Autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Petrópolis: Vozes, 1996.

 

SCHMIDT, Mario. O livro didático que a Globo quer proibir. In: Revista NovaE. Disponível em: <http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=792> Acesso em 19 mai. 2008.

 

 

 

ANEXO

 

 Grande-queima_final.jpg. 2007. Altura: 557 pixels. Larguna: 418 pixels. 43 Kb. Formato JPEG. Disponível em: <http://blog.estadao.com.br/blog/renata/?blog=47&page=1&disp=posts&paged=3> Acesso em: 19 mai. 2008.


 

[1] Aluna do Programa de Pós-graduação em Lingüística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas. E-mail: daniellebaretta@hotmail.com

[2] Ideologia: visão de mundo de um grupo social em um contexto histórico, inscrita na materialidade do discurso.

[3] Paradigma indiciário: modelo de análise no qual, a partir de dados aparentemente irrelevantes, é possível descrever uma realidade complexa.

[4] Efeitos de sentido: sentidos produzidos por sujeitos em interlocução a partir de uma determinada formação discursiva.

[5] Condições de produção: aspectos sociais, históricos e ideológicos que permitem a produção do discurso.

[6] Gestos de interpretação: produção de um efeito de sentido definida pela história e pela ideologia.

[7] Formação discursiva: é o que pode ou não ser dito a partir de condições de produção específicas, isto é, em um determinado contexto sócio-histórico e ideológico.

[8] Interdiscurso: diferentes discursos, provenientes de diferentes momentos históricos e sociais, que integram uma formação discursiva.

[9] Sujeito discursivo: é um sujeito histórico, social e ideológico. Em seu discurso manifestam-se diferentes vozes integrantes de outros discursos.

[10] Espaço de enunciação: lugar sócio-histórico e ideológico de onde os sujeitos falam.

 

 

 

 

 

 

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