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APONTAMENTOS SOBRE “CONVULSÕES” NAS CIÊNCIAS DA LINGUAGEM: EVERETT X CHOMSKY[1]
 

Por Roberto Leiser Baronas (DL-PPGL-UFSCar)

 

Primeiras palavras

 

Pesquisas lingüísticas recentemente realizadas pelo antropólogo Daniel Everett com a língua Pirahã do Sul do Amazonas parecem ter colocado fim no longo período de estabilidade do paradigma chomskyano, que prevê a existência de uma gramática universal comum a todas as línguas da humanidade. Se os argumentos de Everett, os seus “feitos heróicos” se confirmarem, os postulados de Chomsky estariam entrando em um período de crise para em seguida sofrerem uma profunda mudança. Antes de entrarmos na polêmica Everett versus Chomsky, façamos um brevíssimo passeio pela história da lingüística para entendermos um pouco sobre as principais “convulsões metodológicas” pelas quais essa ciência passou.

 

A primeira grande convulsão

 

O principal debate suscitado nessa ciência foi protagonizado pelo lingüista norte-americano Noam Chomsky nos anos cinqüenta do século passado. Em seu livro, “Syntactic Structures”, Chomsky, apoiado no racionalismo clássico (cartesianismo) e na tradição lógica, em seu programa de pesquisa critica veementemente os seguidores de Leonard Bloomfield por seu modo estruturalista de analisar a linguagem. Para alguns filósofos da lingüística Chomsky teria promovido com seu programa de pesquisa uma verdadeira revolução científica, instaurando um novo paradigma científico.

Os estruturalistas, tributários de Ferdinand de Saussure, considerado o pai da lingüística moderna, mais especificamente, os distribucionalistas norte-americanos, partindo da psicologia behaviorista, acreditavam que o estudo de uma língua deveria ser feito a partir da uma reunião de um conjunto, de um corpus tão variado quanto possível de frases efetivamente produzidas por falantes dessa língua, em determinada época, com o objetivo de descrever as regularidades existentes nessas falas. Para os estruturalistas as línguas se organizam em todos os seus aspectos estruturais (fonéticos, morfológicos e sintáticos) de uma maneira regular e reiterável.

O trabalho do lingüista distribucionalista é descrever o funcionamento dessa organização. Por exemplo, numa frase do português como “Os meninos são levados”, o estruturalista começaria analisando essa estrutura decompondo todos os seus constituintes imediatos, dividindo-os em unidades simples e associando cada uma dessas unidades, com base em diferentes critérios categoriais, a diferentes classes. Assim, identificaria o artigo “Os”; o nome “meninos”; o verbo “são” e o adjetivo “levados”. Depois, verificaria como cada um desses constituintes imediatos se relaciona com outros formando pequenos segmentos. Desse modo, relacionaria o artigo “Os” com o nome “meninos” para formar o conjunto “Os meninos” e o verbo “são” com o adjetivo “levados” para formar “são levados”. Por último, o estruturalista definiria quais os papéis específicos que cada um desses segmentos desempenha na frase. Dessa maneira, o conjunto “Os meninos” exerce a função de sujeito e o conjunto “são levados” de predicado. Todo esse trabalho de decomposição dos segmentos em constituintes menores a partir de um determinado corpus de língua é fundamental para se observar, por exemplo, que uma das regularidades lingüísticas estruturais do português é que o artigo vem sempre anteposto ao substantivo.

O programa de pesquisa de Noam Chomsky, no entanto, rebaterá duramente a postura analítica dos estruturalistas. O lingüista norte-americano afirma que o homem já nasce com a linguagem. Ela faz parte da natureza humana. Desse modo, para ele uma língua não se restringe a um corpus, pois enquanto este se constitui num conjunto finito de frases a língua torna possível um conjunto infinito: a uma frase pode juntar-se outra, outra ainda e assim sucessivamente. Ademais, segundo Chomsky uma língua não se restringe a um conjunto de frases, mas se constitui num saber a propósito dessas frases. Ou seja, os falantes possuem um saber inato sobre sua própria língua que os habilita a distinguir uma frase gramatical de uma frase agramatical. Por exemplo, um falante do português é capaz de reconhecer a frase “Os meninos são levados” como gramatical e “Levados os são meninos” como agramatical.

Chomsky argumenta que a gramática de uma língua se constitui num conjunto de regras, de instruções, cuja aplicação mecânica produz frases admissíveis dessa língua. Surge a Gramática Gerativa, gerativa porque possibilita, a partir de um conjunto limitado de regras, gerar um número infinito de frases. A língua no entendimento de Noam Chomsky não se define somente pelas frases existentes, mas também por aquelas possíveis de ser criadas a partir das regras.  Essas regras são interiorizadas pelos falantes que os torna aptos a produzir frases mesmo sem que estes tenham sequer ouvido essas frases. Chomsky define como recursividade essa capacidade a partir da qual somos capazes de produzir uma variedade ilimitada de sentenças de comprimento indeterminado apenas combinando as poucas regras da língua.

Como o que está em causa para Chomsky é um falante ideal e não um falante real, sua teoria conduz à existência de uma gramática universal em que alguns traços são comuns a todas as línguas da humanidade. Por exemplo, toda língua possui recursividade; toda língua distingue nomes e verbos; toda língua distingue três pessoas do discurso; toda língua tem pelo menos três vogais.  O que implica dizer que para Chomsky a linguagem independe do meio cultural em que os falantes vivem.

 

Uma segunda grande convulsão?

Foi necessário esperar quase cinqüenta anos para que tivéssemos mais uma grande polêmica na lingüística. Desta vez é o próprio programa de pesquisa de Noam Chomsky que é posto à prova. O antropólogo Daniel Everett após estudar por cerca de 30 anos os Pirahãs, grupo indígena, localizado no Sul do Amazonas, constituído por cerca de 350 indivíduos questionou a afirmação chomskyana de uma gramática universal dizendo que os índios Pirahãs têm o seu pensamento determinado pela cultura e não por aspectos cognitivos com afirma Chomsky com a gramática universal.

O estudo de Everett foi publicado em 2005 no periódico “Current Anthropology”. Nesse estudo, o lingüista norte-americano afirma que  os Pirahãs usam apenas oito consoantes e três vogais, não têm tempos verbais, contam até três, não têm palavras para cores e não possuem mitos para a sua criação. Everett afirma ainda em seu estudo que a língua dos Pirahãs não possui recursividade, ou seja, a capacidade de formar sentenças encaixando  uma frase em outra. Por exemplo, para dizer que “O arco é do irmão de Pedro” um Pirahã diria: “O arco de Pedro”; “O irmão de Pedro”. A inexistência da recursividade na língua Pirahã se constitui num forte argumento contrário à tese chomskyana da gramática universal.

Torçamos para que mais “abalos sísmicos” ocorram não só na lingüística, mas nas ciências da linguagem de uma maneira geral. Somente assim elas terão a sua maturidade científica garantida.


 

[1] Uma versão primeira deste texto foi publicada na Revista Clickciência da UFSCar em 30/05/2007

 

 

 

 

 

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