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COMO CLASSIFICAR AS LETRAS K, W, Y?

 

Carlos Alberto Faraco (UFPR)

 

As letras k, w, y continuam a tirar o sono de algumas pessoas,principalmente de professores alfabetizadores. A disposição do Acordo Ortográfico de 1990 (que regula a unificação das ortografias do português e que está em vigor no Brasil desde 1/1/2009) de “incluir” estas três letras no nosso alfabeto tem causado alguns mal-entendidos.

No fundo, nada mudou. O Formulário Ortográfico de 1943 dizia que o nosso alfabeto constava fundamentalmente de 23 letras. E acrescentava: “Além dessas letras, há três que só se podem usar em casos especiais: k, w, y”.
Como argumentei em outro texto (“As letras k, w, y” neste site), o sistema ortográfico do português dispunha, por este ordenamento do Formulário Ortográfico, de 26 letras: 23 fundamentais e 3 especiais.

O que o Acordo Ortográfico fez foi agrupar estas duas afirmações anteriores numa só. Nada mais do que isso. As restrições anteriores quanto ao uso de k, w, y permanecem as mesmas. Continuamos, portanto, a ter 23 letras fundamentais (com elas organizamos a ortografia do português) e 3 especiais (com elas suplementamos nossa ortografia com letras para grafar nomes próprios – antropônimos ou topônimos – originários de outras línguas (e seus derivados), siglas, símbolos e palavras designadoras de unidades de medida e termos técnicos de uso internacional.

Desse modo, a apresentação das letras do alfabeto no processo de alfabetização pode continuar como tem sido feita desde que o Formulário Ortográfico de 1943 entrou em vigor.

Poderíamos nos perguntar por que se deu nova redação ao item que trata do alfabeto, se nada, de fato, mudou. A única explicação que consigo vislumbrar é a intenção dos redatores do Acordo Ortográfico de incluir, nas normas que regem a nossa ortografia, a tradição de ordenamento dessas letras especiais seguida pelos dicionários (o k entre o j e o l; o w entre o v e o x; o y entre o x e o z).
Recentemente, me foi apresentada uma outra dúvida: como classificar estas três letras. Até agora parece que a escola nunca se preocupou em classificá-las e isso porque, no discurso escolar tradicional, havia o entendimento de que estas três letras não pertenciam ao nosso alfabeto. Com a redação que o Acordo Ortográfico deu à composição do alfabeto, essa questão passou a chamar a atenção dos professores.

Embora não haja nenhuma normatização de como devemos classificar as  letras do alfabeto (a Nomenclatura Gramatical Brasileira não trata disso, nem o Formulário Ortográfico de 1943, nem o Acordo Ortográfico), é da tradição escolar dizer, a propósito do alfabeto de 23 letras, que, fora as 5 vogais (a, e, i, o, u), as demais letras são consoantes.

Se tentarmos descobrir o critério subjacente a esta classificação, veremos que, em princípio, ele pode assim ser resumido: a letra será consoante se representar pelo menos um fonema que seja consoante; e será vogal se  representar fundamentalmente um fonema vocálico.

Por este critério, as letras k (que sempre representa um fonema consonântico) e w (que ora representa uma consoante – como em wagneriano; ora uma semivogal, como em web) deverão ser classificadas como consoantes, embora os grandes dicionários atuais não o façam (com exceção do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa): o Aurélio-século XXI, por exemplo, não classifica nenhuma das letras do alfabeto; o Houaiss classifica só as 23 letras fundamentais, apresentando o k, o w, o y como “letras emprestadas” (o k e o y do alfabeto grego e o w de alfabetos de outras línguas).
Com o critério que resumimos acima, ficamos, porém, com dois problemas:
– como classificar o h – que é uma letra que não representa nenhum fonema no alfabeto português?

– como classificar o y – que geralmente representa uma semivogal (yeti, yakisoba), algumas poucas vezes o ditongo /aj/ (como em byroniano) e raras vezes a vogal i (em palavras estrangeiras ainda não aportuguesadas ortograficamente, como hobby; em antropônimos como Ygor ou em termos técnicos da mineralogia como yftisita e ytérbio).
Quanto ao h, é interessante observar que o Formulário Ortográfico de 1943, embora não classificasse as letras do alfabeto, diz que o h “não é propriamente consoante, mas um símbolo que, em razão da etimologia e da tradição escrita do nosso idioma, se conserva no princípio de várias palavras e no fim de algumas interjeições”.

Apesar dessa afirmação de que o h não é consoante, a tradição escolar o classifica como tal, assim como alguns dicionários (como o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa  e o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa).

Quanto ao y, não dispomos de nenhuma referência para saber como classificá-lo no alfabeto português. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, que classifica o k  e o w como consoantes, deixa o y sem classificação. Diz apenas que ele é a 25ª letra do nosso alfabeto. Assim, por ele, o alfabeto português teria 20 consoantes, 5 vogais e uma letra não classificada.

Se ainda assim quisermos classificar o y, não temos saída senão tomar uma decisão aleatória. No alfabeto grego, o y é uma vogal. No entanto, classificá-lo como vogal no alfabeto português seria, certamente, muito estranho porque ele raramente representa um fonema vocálico. Como vimos, ele representa mais frequentemente uma semivogal e, em pouquíssimos casos, um ditongo.
Diante desse quadro tão heterogêneo e considerando que tecnicamente, em fonologia, uma semivogal é considerada um fonema consonântico, talvez a melhor saída seja classificar o y como consoante. Seria a 25ª letra e a 20ª consoante do alfabeto português.
 

 

 

Carlos Alberto Faraco é Professor Titular (aposentado) de Linguística e Língua Portuguesa da Universidade Federal do Paraná. Membro da Comissão para a Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa do Ministério da Educação.

Contato: deolhonalingua@ufpr.br

 

A versão anterior deste texto foi publicada na coluna do prof. Faraco no site da Rádio CBN de Curitiba

 

 

 

 

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