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O ROSTO DE JANO: IMAGENS
AMBIVALENTES DA NATUREZA EM O GUARANI DE JOSÉ DE
ALENCAR
Amael Oliveira
INTRODUÇÃO
Nascido em
1829 em Messejana, Ceará, José Martiniano de Alencar
foi fruto da relação ilícita entre o padre José
Martiniano e a prima Ana Josefina. Sete anos antes,
em 1822, após a Proclamação da Independência, D.
Pedro I se torna imperador do Brasil. O clima de
euforia, no entanto, é logo abalado pela Guerra da
Cisplatina que duraria três anos (1825/1828) e a
falência do Banco do Brasil, em 1829. Dois anos após
o seu nascimento, em 1831, D. Pedro I, cedendo a
pressões internas e externas, abdica em favor do
filho e retorna para Portugal. É nesse cenário
político de disputas pelo poder que o jovem escritor
crescerá acompanhando o pai que seria senador e,
posteriormente, governador do estado do Ceará.
Alencar estréia na literatura com o romance Cinco
minutos em 1856, mas apenas com O Guarani,
publicado um ano depois, o jornalista ganhará
notoriedade como escritor. Durante toda a vida,
publicou 18 romances divididos em narrativas
urbanas, regionalistas e indianistas.
Não só
por ser uma de suas maiores obras, como também a
primeira da trilogia de vertente indianista, O
Guarani pode ser entendido dentro de uma grande
tomada de consciência do problema da nacionalidade
brasileira. Havia um povo, faltava fazer desse povo
uma nação. Essa obra, então, elege para si o papel
de elaboradora da nacionalidade ainda nascente na
recém colônia independente.
Tendo
por base um arcabouço teórico advindo das áreas de
História, Sociologia, Antropologia, Crítica
literária e Teoria Literária, o presente trabalho
busca analisar as imagens da natureza presentes na
obra com o fim de observar a articulação dessas
imagens à postura intelectual adotada por Alencar na
elaboração do discurso nacional. Na ausência de uma
história de glórias, o escritor cearense, como
outros românticos, buscou na natureza o mote para
defesa de uma literatura de expressão brasileira,
separada da influência portuguesa.
Desse
esforço surge uma obra múltipla. O guarani
seria, no campo literário, o que representou no
campo político a independência do país. A obra é
esse trabalho de construção consciente, como se
pretende mostrar posteriormente, da nação. Ao
contrário do que normalmente se pensa, a literatura
não é influenciada pelo movimento de descoberta de
um povo brasileiro, mas é, na verdade, sujeito ativo
na participação desse processo de elaboração.
A RECEPÇÃO
CRÍTICA DA OBRA ALENCARIANA
A obra de José de
Alencar sempre foi tratada pela história literária
brasileira de maneira controversa. Se por um lado o
sucesso junto aos leitores o manteve entre um dos
autores mais lidos no país, por outro a crítica das
suas publicações tratou a produção do escritor
cearense de maneira indiferente. Enquanto os
leitores iam diariamente aos jornais em busca dos
capítulos publicados nos folhetins, a crítica
adotava uma posição de silêncio.
Em sua
autobiografia literária, Como e por que sou
romancista (1893), o escritor cearense irá
manifestar todo o seu desapontamento em relação à
recepção das suas obras nos veículos de informação
mais populares da época, os jornais.
Durante todo esse
tempo e ainda muito depois, não vi na imprensa
qualquer elogio, crítica ou simples notícia do
romance, a não ser uma folha no Rio Grande do Sul,
como razão para a transcrição dos folhetins.
Reclamei contra esse abuso, que cessou; mas
posteriormente soube que se aproveitou a composição
já adiantada para uma tiragem avulsa. (ALENCAR,
2008)
O mesmo Alencar
contestará a comparação que os críticos do período
fizeram de O Guarani com a obra
The Last of the Mohicans (O último dos
moicanos) do americano James Fenimore Cooper. À
comparação, o escritor responderá na sua
autobiografia literária de maneira irônica e
agressiva.
Disse alguém, e
repete-se por aí de oitiva que O Guarani é um
romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria
coincidência, e nunca imitação; mas não é. Meus
escritos se parecem tanto com os do ilustre
romancista americano, como as várzeas do Ceará com
as margens do Delaware. (ALENCAR, 2008)
A aproximação foi
vista como ofensa ao escritor, isto porque, para os
artistas do romantismo, a idéia de imitação ganhava
contornos sombrios, a partir do momento em que a
obra literária deveria ser fruto de uma inspiração
pessoal, subjetiva e criativa. A explicação para
isso, segundo Adilson Citelli, está na atitude de
quebra do rigor das regras e afirmação da liberdade
de criação. “[...] os românticos passaram a
exercitar a subjetividade, creditando à inspiração e
ao gênio a missão de separar um mero imitador de
modelos de um original inventor de objetos
artísticos” (CITELLI, 2002, p. 75). Em trecho
posterior Alencar irá manifestar a sua indignação,
acusando a crítica literária do período de preguiça
e ausência de métodos analíticos.
O que se precisa
examinar é se as descrições d’O Guarani têm algum
parentesco ou afinidade com as descrições de Cooper,
mas isso não fazem os críticos, porque dá trabalho e
exige que se pense. Entretanto basta o confronto
para conhecer que não se parecem nem no assunto, nem
no gênero e estilo. (ALENCAR, 2008)
Estudioso do
Romantismo brasileiro, Afrânio Coutinho (1986, p.
252) corrobora Alencar ao afirmar que as apreciações
de boa parte das análises feitas na segunda metade
do século XIX se fundamentavam em referências à vida
pessoal do escritor cearense. “A crítica em relação
a Alencar raramente saiu do plano do sentimento, ou
da consideração dos fatos da biografia, em vez da
compreensão da obra, atraída por certos traços do
temperamento e do caráter complexo do escritor.”
Coutinho, citando Nélson Werneck Sodré, pontuará que
à medida que os romances alencarianos penetravam na
massa de leitores, e já de leitores de gerações
diferentes, foram sendo esquecidos pela academia.
Ao contrário,
teria sido ela própria (sua formação literária
clássica e romântica), conjugada à observação da
história brasileira, que levou Alencar a essa
posição singular para a sua época, de perfeita
consciência da necessidade de formar uma literatura
nacional, não apenas no conteúdo, mas na forma, o
que é particularmente significativo. (COUTINHO,
1986, p. 253)
Já Maria Cecília
Boechat (2003) explica que para entender melhor a
obra de Alencar é preciso recuperar “a presença de
uma forte autoconsciência ficcional, reflexiva, com
a qual, ao contrário do que sempre quisemos admitir,
o texto de Alencar estabelece sua relação crítica
consigo mesmo, com o leitor e com a realidade
brasileira” (BOECHAT, 2003, p. 15).
Tal tarefa já
tinha sido proposta por Antonio Candido ao entender
o período romântico ligado “à vontade consciente de
definir no Brasil uma literatura independente,
exprimindo a seu modo os temas, problemas e
sentimentos da jovem nação” (CANDIDO, 1981, p. 303).
De acordo com
Candido, o romantismo brasileiro “foi o episódio do
grande processo de tomada de consciência nacional,
construindo um aspecto do movimento de
independência. Afirmar a autonomia no setor
literário significava cortar mais um liame com a mãe
pátria [Portugal]” (1981, p. 303). É dentro desse
contexto, que Alencar irá despontar como o maior
símbolo do engajamento que os escritores do período
mantiveram com o objetivo de formação nacional.
É, então, no dizer
de Alfredo Bosi que “o lugar de centro [no
romantismo], pela natureza e extensão da obra que
produziu, viria a caber com toda justiça a José de
Alencar” (1994, p. 134-140). Bosi confirma a
importância já apontada por Candido, situando o
escritor como mestre superior na arte literária
romântica.
Já ouve quem
observou o infantilismo das construções alencarianas.
Valor é o que aparece como valor. [...] De
que “realismo” se trata aqui? É melhor falar do
pitoresco ou na curiosidade do pormenor brilhante,
destinados romanticamente a criar um halo de
diferença em torno dos protagonistas. Mas descontada
a intenção, Alencar, ao descrever a natureza e os
ambientes internos, é tão preciso como qualquer
prosador do fim do século. É claro, há mais
participação emotiva no ato de descrever no
romântico que no naturalista. (BOSI, 1994, p. 140)
É diante desse
quadro de indiferença e louvor que o pesquisador que
deseja adentrar no mundo ficcional de Alencar se
encontra. Ao mesmo tempo em que busca entender a
obra como fenômeno histórico, ou seja, dentro de um
contexto de produção e recepção, busca-se também
compreender o texto literário como um produto para
além da história e próximo do leitor e da crítica.
Se Alencar se posiciona dentro do Romantismo
brasileiro como um ponto de destaque, não tão
ingenuamente o coloca a crítica atual ao relatar e
explicar um tecido social maior no qual o escritor
cearense não é só peça formadora, mas também, um
idealizador da imagem de nação brasileira.
IMAGENS DA
NATUREZA EM O GUARANI DE JOSÉ DE ALENCAR
Como já colocado,
José de Alencar soube compreender bem o processo de
formação de uma identidade nacional que estava se
delineando no quadro político com a independência do
reino português e no quadro cultural com a ascensão
do romantismo e suas propostas que destacavam
símbolos nacionais como representantes da própria
nação. Por meio de sua obra, Alencar (2008)
procurava defender pressupostos intelectuais sobre
como a “nossa ainda infante literatura” poderia
contribuir com o objetivo de elaboração de uma
identidade brasileira.
Tendo em vista
esse quadro, os elementos que compõem a tônica
romântica do escritor cearense não podem ser vistos
fora desse projeto político. Segundo Citelli, o
papel central que a paisagem natural tem nas obras
indianistas do autor, por exemplo, não foi
acidental, mas fruto de um posicionamento consciente
cujo “objetivo é o de enlevar, pela natureza, a
própria nacionalidade” (CITELLI, 2002, p. 79).
É preciso
considerar, particularmente nas nações
recém-independentes, o fato de que exaltar a
natureza passou a ser sinônimo de afirmação
nacional; de certo modo, o romântico confundiu os
conceitos de terra e nação, a dimensão física e a
dimensão política. Se a terra era boa, a não nação
também teria de ser. (CITELLI, 2002, p. 79)
A escolha da
figura do indígena é outro exemplo desse
posicionamento. Dentro dos parâmetros do romantismo
europeu, a literatura deveria eleger um herói, não
só para ser utilizado como pano de fundo para um
enredo de louvor à figura que ele representava, mas
também para servir de representante de sua
comunidade específica. O herói romântico é o modelo
que, ao ser exaltado, engrandece a história de
glórias de uma nação. No caso do Brasil, a ausência
de um passado medieval, habitado por cavaleiros
corajosos e damas em perigo, surge para o escritor
como um problema. A recente nação brasileira não
possuía em seu acervo cultural a presença de tais
heróis medievais. Alencar compreendeu, então, que
era preciso forjá-los, mas para isso seria preciso
escolher entre as três principais figuras da
formação étnica do povo brasileiro: o branco, o
negro e o índio.
O branco
representava ao mesmo tempo o espírito de aventura e
a cobiça dos bandeirantes. O negro, por sua vez, era
em pleno período escravocrata símbolo da servidão.
Já o índio era, na visão do escritor, o modelo de
luta em defesa da posse das suas terras. Diante das
três opções, Alencar escolhe o índio, mas não um
qualquer. Ele elabora um indígena com corpo
selvagem, mas alma de cavaleiro cristão. O resultado
dessa escolha lhe rendeu três romances: O guarani
(1857), Iracema (1865) e Ubirajara
(1874).
As três obras
traçam em conjunto um passado histórico idealista da
recente nação. Ubirajara narra o momento
anterior à chegada do conquistador branco, período
em que os indígenas dominavam o solo nacional.
Iracema, por sua vez, representa o conflituoso
encontro entre esses dois povos e a submissão dos
antigos senhores das florestas brasileiras. Já O
guarani é a narração de um tempo posterior,
quando submetido ao jugo português, o índio desponta
como herói convertido ao cristianismo, portador de
estatura moral, abnegação e heroísmo.
Esse caráter ideal
não é construído pelo escritor romântico sem uma
clara intencionalidade. O mesmo Alencar irá admitir
posteriormente, em sua autobiografia que,
N’O guarani
o selvagem é um ideal, que o escritor intenta
poetizar, despindo-o da crosta grosseira de que o
envolveram os cronistas, e arrancando-o ao ridículo
que sobre ele projetam os restos embrutecidos da
quase extinta raça. (ALENCAR, 2008)
Esse caráter
construído conscientemente, contudo, não anula a
capacidade de servir de elemento da composição da
imagem nacional. Ao contrário, é justamente por ser
idealizado que esse herói ganhará o leitor. O autor
tinha o objetivo de fazer com que o seu público
buscasse no índio o próprio reflexo de sua
identidade, reconhecendo-se nele.
O GUARANI
Publicado
primeiramente nos folhetins do Diário do Rio de
Janeiro, entre os meses de fevereiro e abril de
1857, O guarani é um dos romances que toma
para si a responsabilidade de promover uma cultura
literária de expressão nacional. Seu enredo coloca o
leitor diante das figuras do índio Peri e da donzela
branca Cecília. Reconhecido por D. Antônio de Mariz,
pai de Cecília, Peri é louvado antagonicamente pela
oposição que se estabelece entre sua imagem selvagem
e seu nobre espírito.
É para mim uma das
coisas mais admiráveis que tenha visto nesta terra,
o caráter desse índio. Desde o primeiro dia que aqui
entrou, salvando minha filha, a sua vida tem sido um
só ato de abnegação e heroísmo. Crede-me, Álvaro, é
um cavaleiro português no corpo de um selvagem!
(ALENCAR, 2006, p. 45)
A
relação entre o indígena e a moça é de servidão
cultuada. Para Peri, Ceci (nome dado pelo índio a
Cecília) é a representante da Virgem Maria, por isso
o mais vago desejo é entendido como uma ordem a ser
cumprida. Esse caráter cristão do indígena será
apresentando ao longo da obra por referências
diretas e indiretas.
Em episódio
narrado no capítulo A índia (ALENCAR, 2006,
p. 74), Peri descobre o assassinato de uma
filha aimoré pelo primogênito de D. Antônio de
Mariz, o fidalgo D. Diogo. Este é o motivo para a
cruel vingança que a tribo preparará para destruir o
paquequer, a fortaleza habitada pela família
portuguesa. O inimigo externo, contudo, não era o
único. Dentre os seus próprios servos, D.
Antônio ainda lidaria com a ambição e lasciva do
ex-frei, agora apenas conhecido como o italiano
Loredano, cujo objeto de desejo é a posse da jovem
Ceci. Além de Peri, Cecília também é cortejada pelo
nobre cavaleiro D. Álvaro, que por sua vez é a
paixão secreta de Isabel, filha bastarda de D.
Antônio. Dentre os três pretendentes, Alencar elege
o herói selvagem para ser o escolhido da inocente e
pura Ceci, justificando sua decisão com base na
dignidade do sentimento do índio.
Em Loredano, o
aventureiro de baixa extração, esse sentimento era
desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe
requeimava o sangue [...]. Em Álvaro, o cavaleiro
delicado e cortês, o sentimento era afeição nobre e
pura, cheia de graciosa timidez que perfuma as
primeiras flores do coração [...]. Em Peri o
sentimento era um culto, espécie de idolatria
fanática, na qual não entrava um só pensamento de
egoísmo [...]. Loredano desejava; Álvaro amava; Peri
adorava. (ALENCAR, 2006, p. 51-52)
Descoberto o seu plano de rapto de Ceci, Loredano é
condenado e morto. Álvaro reconhece o amor devoto de
Isabel e, na batalha contra os Aimorés, morre
abraçado a ela. Na mesma batalha, o paquequer
é destruído. Os únicos sobreviventes do conflito são
Peri e Cecília. Salva, a heroína é levada para viver
junto ao índio em sua tribo, a dos guaranis.
O que
se apreende da caracterização do selvagem
alencariano é uma imagem integradora em que o ser
humano é parte constitutiva da própria natureza.
Peri não é um homem, no sentido de sujeito
civilizado, mas é antes um animal, membro das
florestas e não da roda da sociedade. Essa tese de
reconhecimento de uma ligação entre homem-natureza,
muito em voga no período, foi defendida por Johann
Gottfried von Heder que em seu discurso sobre
nacionalismo, “Genio nacional y medio
ambiente” do final do século XVIII, afirmará que
“nigún hombre, por lo demás, es uma sustancia
independiente, sino que se encuentra em constante
intercomunicarción com todos los elementos de la
naturaleza” (HEDER, 2000, p. 28).
Essa
aparente imagem de integração, contudo, cai se
observada dentro do contexto geral da obra. O
romance não é formado por imagens da natureza
composta por elementos unificadores, puramente
harmônicos. O que ocorre na descrição de Peri é
apenas um fenômeno constitutivo de seu caráter
ideal. Ele, na verdade, é uma exceção dentro da
obra. Os demais indígenas são o contraponto do
herói, a outra face da natureza, ainda oculta e
temida. Os aimorés são descritos com características
animalescas, reflexos de uma imagem de barbárie.
Assim
temos, ao mesmo tempo, uma imagem de natureza ligada
à idéia de paraíso, integração e civilidade, e uma
outra ligada à imagem selvagem, por vezes monstruosa
e bárbara. Se temos o índio descrito como “um
cavaleiro português no corpo de um selvagem”, nas
palavras do patriarca fidalgo, temos também outras
descrições que caminham em sentido oposto,
aproximando as figuras indígenas a de monstros como
ocorre com as descrições dos aimorés. “Os dentes
agudos como presas do jaguar, já não tinham o
esmalte que a natureza lhe dera; as armas ao mesmo
tempo que instrumento da alimentação, o sangue os
tingira da cor amaralenta que têm os dentes dos
animais carniceiros” (ALENCAR, 2006, p. 218).
O
diálogo que se estabelece entre essas duas imagens,
a de Peri e a dos índios oponentes, é a própria
dinâmica que emerge entre o processo civilizador e a
barbárie. Como apontado por Norbert Elias (1993), o
processo civilizador corresponde a uma mudança na
conduta e sentimentos humanos no sentido de um maior
controle das paixões que resulta numa crescente
interdependência entre as pessoas. Segundo Elias
(1993, p. 193-195), o controle exercido por
terceiros, neste caso a família de D. Antônio,
geraria um crescente autocontrole que classificaria
as atitudes animalescas como vergonhosas. Alencar
não só confirma essa tese, como também acrescenta
que no caso brasileiro, esse processo de repressão
dos sentimentos possui uma estreita ligação com a
imposição do cristianismo, resultado da catequese do
período colonial.
Peri é
um selvagem cristão. Esta é a maior diferença entre
ele e os temíveis aimorés. Quando não caracterizado
tipologicamente como seguidor da Igreja, Peri
desponta quase que subliminarmente ligado à esfera
religiosa por conceitos que agregam ao índio
símbolos do culto, como ocorre no excerto seguinte,
quando, prisioneiro, ele é cuidado pela mais formosa
índia aimoré que o tenta seduzir.
Mas Peri, frio e
indiferente, não se comovia, nem aceitava essa
afeição passageira e efêmera que tinha começado com
o dia e devia acabar com ele; sua idéia fixa, a
lembrança de seus amigos, o protegia contra a
tentação. (ALENCAR, 2006, p. 226)
Além da
resistência ao pecado, símbolo da fé cristã, o
selvagem possui um olhar que reconhece o mundo como
efêmero e passageiro, olhar que representa a crença
na vida eterna alcançada com a salvação. No caso em
questão, sua abnegação religiosa que como um mártir
se sacrifica pelo próximo, o leva a este ato de
resistência em defesa do eterno, mostrando-se como
um exemplo de bravura, como um verdadeiro herói
medieval.
Vale ressaltar que
o fator incivilizado dos inimigos também se
relaciona a ausência de religião: “[...] o índio
[Peri] conhecia a ferocidade desse povo [os aimorés]
sem pátria e sem religião [...]” (ALENCAR, 2006, p.
76). Nesta última citação há dois pontos que merecem
ser desenvolvidos. O primeiro é a ausência da
cultura cristã, emergindo no texto como resultado de
uma visão européia que defendia um esteriótipo de
índio como seres sem experiências transcendentais,
metafísicas, e, por isso, ligados ao mundo efêmero e
pecaminoso. E o segundo é o conceito ufanista de
pátria cuja ausência representa nos aimorés a falta
de um certo sentimento de irmandade entre eles e os
demais habitantes de uma mesma terra.
Compreendendo essa
distinção, o narrador de O Guarani se coloca
numa postura de valorização desse caráter selvagem
como libertador do indivíduo, que ausente das
amarras sociais pode sentir livremente.
Na vida selvagem,
tão próximo da natureza, onde a conveniência e os
costumes não reprimem os movimentos do coração, o
sentimento é uma flor que nasce como a flor do
campo, e cresce em algumas horas com uma gota de
orvalho e um raio de sol. (ALENCAR, 2006, p. 22).
O trecho acima
exemplifica bem a aproximação que o texto
alencariano possui em relação à obra de Elias. Em
ambos, a barbárie é o local da ausência de repressão
social. No caso do romance, essa ausência do olhar
repressor da sociedade promove uma autêntica
capacidade de amar, posto que os sujeitos estão
libertos do peso da “conveniência” e dos “costumes”;
o que corrobora a tese de que Peri, e não todo
índio, apresenta o que se poderia chamar de
verdadeiro sentir, em que verdadeiro representa o
respeito aos impulsos sentimentais, sem a obediência
aos padrões sociais. Só a partir desse ponto seria
justificável entender, dentro dos padrões da
sociedade burguesa da época, a ousadia do índio em
querer amar a donzela branca. No trecho posterior, o
narrador ainda contrapõe a vida selvagem à vida na
sociedade de repressão: “Nos tempos da civilização,
ao contrário, o sentimento torna-se planta exótica;
que só vinga e floresce nas estufas, isto é, nos
corações onde o sangue é vigoroso, e o fogo da
paixão ardente e intenso” (ALENCAR, 2006, p. 225).
Ao definir a
dinâmica sentimental nas esferas civilizada e
incivilizada, o autor aponta para um processo de
construção do enredo fundado em duas características
opostas e, ao mesmo tempo, complementares. Ambas
presentes na permanente negociação entre uma imagem
nacional e outra estrangeira.
A explicação para
esse fenômeno de elaboração a partir de uma
ambivalência já foi postulado por Homi K. Bhabha
(2000) que, citando Volosinov, afirma que o signo
ideológico é sempre multiacentuado e com rosto de
Jano. O pensador explora a ambivalência da linguagem
na construção do discurso duplo da nação. “Esto
convierte al familiar dios de dos caras en una
figura de prodigiosa duplicidade que investiga el
espacio de la nación en el proceso de articulación
de elementos: donde los significados pueden ser
parciales porque están in media res [...]” (BHABHA,
2000, p. 214).
É importante
frisar que esse procedimento não é pontual na obra,
antes perpassa todo o tecido narrativo. Não só os
índios possuem essa dupla imagem, mas a própria
natureza apresenta a mesma estrutura de duas faces.
A primeira é a da mãe gentil, relacionada à figura
do herói Peri, símbolo do bom selvagem rousseauriano,
como ilustrado neste recorte: “Então tratou de
recuperar as forças que havia perdido, e tudo quanto
a floresta lhe oferecia de saboroso e nutriente
serviu a este banquete da vida, em que o selvagem
festejava a sua vitória sobre a morte e o veneno”
(ALENCAR, 2006, p. 257) e a segunda é a do monstro,
do local da barbárie, da incivilidade, relacionada
aos demais indígenas da obra, como os Aimorés,
símbolos dos selvagem inimigos do branco.
Homens quase nus,
de estatura gigantesca e aspecto feroz; cobertos de
peles de animais e penas amarelas e escarlates,
armados de grossas claves e arcos enormes, avançavam
soltando gritos medonhos. [...] harmonia sinistra
que revelava os instintos dessa horda selvagem
reduzida à brutalidade das feras. (ALENCAR, 2006, p.
195)
A
mesma imagem ambivalente pode ser vista na descrição
do perfil feminino. Isabel, filha bastarda de D.
Antônio, representará na obra a imagem da mulher
nacional, nascida no calor da terra tropical.
Diferentemente de Cecília que apresenta traços
europeus, pré-moldados ao estereótipo da heroína
romântica, a brasileira unirá em si mesma essa
imagem dupla. Ao mesmo tempo, Isabel é desfalecida,
em obediência ao modelo herdado pelo folhetim
europeu, e vivaz, de riso provocador, uma expressão
ambígua ligada à imagem de paraíso sexual, que chega
até os dias atuais.
Era um tipo
inteiramente diferente do de Cecília; era o tipo
brasileiro em toda a sua graça e formosura, com o
encantador contraste de languidez e malícia, de
indolência e vivacidade. Os olhos grandes e negros,
o rosto moreno e rosado, cabelos pretos, lábios
desdenhosos, sorriso provocador, davam a este rosto
um poder de sedução irresistível. (ALENCAR, 2006, p.
33)
Não só o conjunto
de oposição demarca esse momento de ambivalência,
como também a própria união figurativa, em um mesmo
personagem, de características antitéticas.
Sensualidade e castidade são atributos inerentes à
personagem. Ao contrastar languidez e malícia,
indolência e vivacidade, o escritor estrutura uma
mulher que, como o deus Jano, é de duas faces. A
face da castidade voltada para a Europa cristã e a
face sensual voltada para o Brasil selvagem.
Como Peri tem o
seu contraponto nos índios Aimorés, a nobre heroína
Cecília terá seu contraponto na jovem brasileira,
Isabel. A filha morena de D. Antônio é lasciva,
sensual, brasileira, significado que se aproxima de
sua condição de bastardia, e Ceci, a européia casta,
de tez branca e loura, como mostra o trecho abaixo:
Os grandes olhos
azuis, meio cerrados, às vezes se abriam
languidamente como para embeberem de luz, e
abaixavam de novo as pálpebras rosadas. Os lábios
vermelhos e úmidos pareciam uma flor de gardênia de
nossos campos, orvalhada pelo sereno da
noite; o hálito doce e ligeiro exalava-se formando
um sorriso. Sua tez alva e pura como um floco de
algodão, tingia-se nas faces de uns longes
cor-de-rosa, que iam, desmaiando, morrer no colo de
linhas suaves e delicadas. (ALENCAR, 2006, p. 32,
grifo nosso)
Pela
comparação entre as duas descrições, um ponto
importante sobressai: o contraste existente entre os
dois perfis femininos demarca o posicionamento de
destaque na hierarquia do discurso narrativo de uma
personagem, no caso Ceci, em detrimento de outra.
Isabel é complexa, cheia de atributos opostos. Já a
heroína é uma personagem simples, plana, formada por
uma imagem de integração como a que ocorre com o seu
par romântico, Peri. Por trás disso, Alencar elege a
figura do modelo romântico europeu para a
protagonista de sua narrativa, apontando para uma
imagem de nação ligada ao ambivalente, fruto da
mistura das etnias.
Ainda
dentro dessa mesma problemática, um outro tipo de
estrutura pode ser elencado para demonstrar essa
ambivalência constitutiva do tecido narrativo. A
própria natureza apresenta qualidades que,
dependendo do olhar do personagem, podem ser de
doçura ou de amargor. No caso do exemplo abaixo, em
uma mesma cena, idéias opostas se unem no olhar de
Isabel que contempla a mata brasileira e reconhece
nela um caráter irônico e contraditório. “E uma
coisa singular! Esse sol tão brilhante, essa luz
esplêndida, esse céu azul, que aos outros reanimara,
e que devia inspirar a Isabel o mesmo sentimento,
pareceu-lhe ao contrário uma amarga ironia”
(ALENCAR, 2006, p. 254).
Vale salientar que
esse quadro corresponde a um posicionamento adotado
pelo próprio escritor cearense; o que significa
dizer que é intencional e minuciosamente trabalhado
com o fim de elaborar um discurso nacional. Neste
sentido, o próprio narrador de O guarani se
coloca no discurso, por meio dos pronomes
possessivos, para caracterizar-se como pertencente à
nação brasileira. “Esta cesta continha todas as
resinas aromáticas, todos os perfumes que dão as
árvores de nossa terra; o anime da aroeira,
as pérolas do benjoim, as lágrimas cristalizadas em
embaíba, e gotas do bálsamo, esse sândalo do Brasil”
(ALENCAR, 2006, p. 26 - grifo nosso).
O
olhar do narrador também se permuta ora em um olhar
de aproximação em que se reconhece como brasileiro,
como no caso acima, ora em um olhar de estrangeiro
que se espanta com a barbárie, riscos e perigos da
vida selvagem, como se fosse um europeu que, ao
chegar ao Brasil, assusta-se diante das inundações
do rio Paraíba, como observado no trecho abaixo:
Dir-se-ia que
algum monstro enorme, dessas jibóias tremendas que
vivem nas profundezas da água, mordendo a raiz de
uma rocha, fazia girar a cauda imensa, apertando nas
suas mil voltas a mata que se entendia pelas
margens. Ou que o Paraíba, levantando-se qual novo
Briareu no meio do deserto, estendia os cem braços
titânicos, e apertava ao peito, estrangulando-a em
uma convulsão horrível, toda essa floresta secular
que nascera com o mundo. (ALENCAR, 2006, p. 292-293)
Mais uma vez a
obra de Bhabha fornece bases para a discussão desse
olhar duplo do narrador de O Guarani. Desta
vez o teórico utiliza o conceito de in-between
que em tradução aproximada significaria
entre-lugar. É neste entre-lugar que o narrador
se encontra, isto porque, “la ‘localidad’ de la
cultura nacional no es unificada ni unitaria em
relación consigo misma, ni debe ser vista
simplesmente como ‘otra’ en relación com lo que está
afuera o más allá de ella” (BHABHA, 2000, p. 215).
Assim sendo, esta ambivalência no olhar do foco
narrativo é também fruto do rosto de Jano, do
problema que relaciona o dentro e o fora da
localidade nacional.
Essa questão de
localização do espaço da cultura nacional será
desenvolvida a partir do enfoque que entende as
fronteiras culturais como híbridas, pontos de
encontro e negociação. É nesse momento que o ideal
de uma nação como uma unidade fixa é derrubado para
defesa da imagem de uma nação múltipla que dialoga
com outros espaços. O que está em jogo, então, é a
união das duas imagens de natureza como conseqüência
de um conceito de nação em processo de construção.
A imagem de
estranhamento em relação à barbárie, reflexo desse
modo de olhar estrangeiro, o “fora”, pode ser
explicada, de acordo com os estudos do teórico
indo-britânico, como o surgimento dentro do próprio
discurso nacional, objetivo de elaboração do
escritor cearense, de um Outro. Nas palavras de
Bhabha, “el ‘otro’ no está nunca afuera o más allá
de nosotros; emerge necessariamente em el discurso
cultural, cuando pensamos que hablamos más
intimamente y autóctonamente ‘entre nosotros’” (BHABHA,
2000, p. 216).
Bhabha explica que
o discurso nacional não é reflexo de uma única voz,
mas de uma voz que se pensa detentora do falar e
outra que emerge no próprio falar para indicar que o
processo de identificação é também de alteridade. O
outro, o estrangeiro, não está na Europa, mas no
próprio discurso que elabora o nacional. Ou seja,
Alencar fala do Brasil ao mesmo tempo articulando
esse olhar nacional e esse outro que emerge com o
espanto pela barbárie do mundo selvagem. Vacilando
ora para uma das faces, ora para outra, o escritor
constrói uma obra complexa, que aparentemente, faz
da natureza um produto do ideal romântico de
exaltação, mas também articula essa imagem como um
objeto de diferenciação, ou de identificação pelo
outro, pela alteridade.
Alencar é um
escritor fruto da angústia da influência européia
sobre o seu saber nacional. Ele não pode fugir ao
espanto. Ao contrário, ele adere à perplexidade,
provocando no leitor esse duplo olhar de aproximação
e afastamento, nacional e estrangeiro, o dentro e
fora do local da cultura. A verdade é que a nação
não está concluída, mas em processo. A face de Jano
é este rosto que olha do entre-lugar para o dentro,
buscando nele o que há de diferente e semelhante com
o fora.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Amado pelos
leitores e rejeitado pela crítica do século XIX,
José de Alencar se delineou no contexto da produção
literária romântica como figura de destaque. Seu
romance O guarani sobreviveu aos vários
testes de recepção, várias gerações leram a obra,
mostrando um valor que vai além do que está escrito.
No romance em
questão o que está escrito é apenas uma parte da
história a ser contada. Por trás das frases de
efeito, da descrição primorosa, existe um debate
intelectual de um escritor que busca elaborar um
tecido nacional, utilizando para isso a natureza
como elemento de identificação comum.
Contudo essa mesma
natureza não possui apenas uma face, mas duas. Assim
como o deus grego Jano, a paisagem natural de O
Guarani, incluindo o elemento indígena, é
a união de duas imagens opostas e complementares.
Peri, índio civilizado, ou melhor, que passou pelo
processo civilizador através da catequese, e os
aimorés, inimigos inflamados pelo sentimento de
vingança, compõem juntos a figura ambivalente desse
deus de dupla face. Ao longo da obra, o diálogo ou
negociação entre as duas fronteiras culturais
permanecem. De um lado o mundo civilizado de Ceci,
do outro o mundo bárbaro de Peri.
Neste sentido, é
interessante notar que, acerca do desfecho da
narrativa, a imagem da civilização, do estrangeiro,
uma das faces da ambivalência defendida ao longo
deste trabalho, rende-se à incivilidade, à barbárie
das terras brasileiras, unindo novamente as duas
faces. Este é o símbolo que está como pano de fundo
no momento da entrega de Ceci a Peri. Ao decidir
viver sob os cuidados do índio na tribo guarani, a
heroína não só renega sua condição de civilizada,
como também a própria união ao indígena é a marca da
junção da visão estrangeira (Ceci) à nacional
(Peri). Em suas palavras, ela afirma sua condição de
brasileira, posto que criada no Brasil, e declara o
seu amor à nação tupiniquim. “Eu também sou filha
desta terra; também me criei no seio desta natureza.
Amo este belo país!...” (ALENCAR, 2006, p. 289).
Essa afirmação de
Ceci oferece uma dimensão do que significa para
Alencar a natureza na obra. Ao se definir como filha
do solo brasileiro, a heroína ratifica a imagem da
mãe dadivosa, que tudo supre, já defendida ao longo
deste trabalho. Contudo, a aparente harmonia do
reconhecimento é abalada pela presença monstruosa da
enchente do rio Paraíba, que demarca um destino
incerto para o recém-casal. Arrastados pela
“torrente impetuosa” (ALENCAR, 2006, p. 296), Peri e
Ceci somem no horizonte. Sobreviverão à enchente?
Viverá junta ao amado na tribo Guarani? Como será a
vida dela, jovem branca, em meio aos selvagens?
Ao suprimir a
narrativa antes do encontro entre a estrangeira e os
nativos, Alencar não dá respostas a estas questões.
Talvez o escritor tivesse a noção de que semelhante
situação soaria inapropriada para a cultura
civilizada da burguesia, principal público leitor de
seus romances. O epílogo de O Guarani deixa
evidente que a nacionalidade, resultante do diálogo
permanente entre as duas fronteiras culturais, não
tem uma conclusão. O que o rosto de Jano revela em
última análise é que a nação não está pronta, mas em
processo de construção. Peri e Ceci formam a face do
deus grego que avança para o futuro civilizado no
reconhecimento e valorização do passado
incivilizado, perdendo suas origens nos mitos do
tempo e unindo nação e narração em um mesmo tecido (BHABHA,
2000, p. 211).
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
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O Guarani. São Paulo: Ática, 2006.
_____. Como e
por que sou romancista. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1837>
Acesso em: 03 ago 2008.
BHABHA, Homi
k. Narrando la nación. In: BRAVO, Álvaro Fernández.
La invención de la nación.
Buenos Aires: Manantial, 2000, p. 211 – 219.
BOECHAT, Maria Cecília.
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Romantismo de José de Alencar e sua recepção
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CANDIDO, Antonio.
Formação da literatura brasileira. São Paulo:
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CITELLI,
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ELIAS, Norbert.
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HEDER,
Johann Gottfried von. Genio nacional y medio
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