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A IDEOLOGIA
CAPITALISTA, DISCURSOS DO E SOBRE O FUTEBOL E DUNGA
Exatamente no dia em que comemoramos os 39 anos do
tricampeonato mundial de futebol, no México, pelos
pés de Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza,
Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Rivelino, Jairzinho,
Tostão e Pelé, o atual técnico da seleção brasileira
proferiu, em umas das entrevistas coletivas durante
a Copa dos Confederações, um enunciado que, para
muitos cronistas, foi o epitáfio de qualquer
esperança de futebol-arte na era Dunga: “Os
saudosistas que me perdoem”, iniciou. “Mas nossa
seleção não privilegia o espetáculo. O importante
para nós é o resultado”, sentenciou.
O
discurso, apesar de repelir um dos elementos mais
singulares na formação da identidade cultural
brasileira, não provocou repercusão. Talvez, por um
lado, porque o Brasil tenha se sagrado tricampeão da
Copa das Confederações – e o resultado é uma das
condições de produção mais determinantes para os
sentidos produzidos e interpretados nos e pelos
discursos que circulam no âmbito do futebol. Por
outro lado, talvez porque Dunga, como treinador,
esteja muito menos para um Telê Santana ou Vanderlei
Luxemburgo do que para um Parreira ou Muricy Ramalho
e, como tal, é adepto e praticante do futebol de
resultado ou futebol burocrático – embora ainda não
tivesse manifestado sua preferência com signos
lingüísticos.
Futebol de resultado que foi a marca registrada do
tetracampeonato, em 1994, nos Estados Unidos, sob o
comando de Carlos Alberto Parreira. E se Romário foi
o herói da conquista – com cinco gols, eleito o
melhor jogador da competição –, Dunga, então volante
e capitão da equipe, foi o símbolo daquela seleção,
que sofreu menos de 0,5 gol por partida – produto da
intensa preocupação em não tomar gols para, aí sim,
tentar fazê-los.
Voltando ao posicionamento ideológico de Dunga sobre
a importância/necessidade da bola na rede, a
ideologia materializada em seu discurso não apareceu
recentemente no futebol e, em termos históricos, é
muito provável que tenha começado a ganhar força
pouco depois da Copa do Mundo de 1974, quando, pelas
mãos do brasileiro João Havelange, então presidente
da Fifa (Federação Internacional de Futebol
Association), o futebol ingressou no capitalismo
de mercado, transformando-se em mercadoria de
consumo e dando os primeiros passos para se
consolidar como business, assim como gosta de
exclamar João Paulo Lopes, ex-diretor de futebol do
São Paulo Futebol Clube. Com a parceria cheia de
segundas intenções oferecida pelo jornalista inglês
Patrick Nelly, considerado o precursor do patrocínio
esportivo, e Horst Dassler, presidente da filial
francesa da Adidas, uma das gigantes transnacionais
da fabricação de materiais esportivos, Havelange
conseguiu que a renda produzida por televisão,
filmes, publicidade nos estádios e outras fontes que
não a venda de ingressos nunca tivesse se aproximado
do que foi conseguido com a Copa do Mundo daquele
ano.
Não demorou muito para que o jogo e seus atores
assimilassem rapidamente a ética do capitalismo de
mercado que se disseminara inicialmente na
superestrutura da modalidade. A partir daí, as
vitórias em campo passaram a representar mais do que
dois ou três pontos na tabela de um campeonato,
tornando-se vias de acesso a contratos de
patrocínio, venda de direitos de exibição das
partidas para a TV, comércio de produtos que
levassem a marca do time vitorioso – de uniformes e
bandeiras a papéis no mercado de ações – e, é claro,
muito dinheiro. E pelas vitórias, valia tudo:
abnegar o espetáculo, retrancar-se com os 11
jogadores no campo de defesa, controlar a posse de
bola sem objetividade para evitar ofensivas, fazer
faltas sucessivas no meio-de-campo para impedir o
adversário de sair rapidamente em contra-ataque,
contentar-se com um 1 x 0 não importasse a (falta
de) qualidade do oponente – todas características do
futebol de resultado. Valia, inclusive, entrar em
campo armado apenas para não perder e subornar os
árbitros nos bastidores. As vitórias, ainda mais se
culminassem na conquista de uma taça, eram garantia
de lçucro para os clubes e seleções, que (se)
vendiam para indústrias e emissoras de televisão,
lucro para as indústrias e emissoras, que vendiam o
futebol para os torcedores.
O
futebol de resultado, neste sentido, pode ser
considerado como signo – e conseqüência – de uma das
relações interdiscursivas mais representativas do
futebol do início dos anos 1990 para cá. O discurso
capitalista, representante de uma ideologia que
apregoa a competição na busca pela acumulação de
lucro, tem dialogado em tom cada vez mais contratual
com os discursos do e sobre futebol, principalmente
no que diz respeito à maneira de jogar ou, como
preferem alguns comentaristas, a filosofia de jogo.
Movendo a história conforme os ditâmes do
materialismo dialético, essa heterogeneidade
modificou o jogo e seus discursos ao ponto de um
símbolo indefectível da identidade cultural
brasileira, o futebol-arte, ser prescindido pelo
técnico da seleção nacional, inscrita no imaginário
cultural e na memória discursiva como o arauto
ludopédico da maneira de habitar o mundo do
brasileiro, da resposta à pergunta “o que é ser
brasileiro?”. E tudo isso em prol do resultado –
ainda que magro e feio, articulado pelo esquema de
três volantes num meio-de-campo que podia ter juntos
os malabaristas Kaká, Robinho e Ronaldinho Gaúcho,
da audiência para Galvão Bueno e sua emissora
monopolizadora, do lucro de procedência e emprego
duvidosos para Ricardo Teixeira, presidente da CBF
(Confederação Brasileira de Futebol).
Lexicólogos e lexicógrafos costumam definir futebol
como “jogo entre dois grupos de onze jogadores, em
campo retangular, onde cada grupo procura fazer
entrar uma bola no gol adversário, sem lhe tocarem
com a mão, tantas vezes quantas forem possíveis,
durante os noventa minutos de prática”.
Precisam, agora, acrescentar, ao texto da definição,
que é uma modalidade esportiva em que o mais
importante é a vitória, não importa o placar, não
importa de que maneira, não importa por qual equipe:
se a austera seleção da Alemanha, se o previsível
British Team, se a retrancada seleção
italiana, se até mesmo a seleção brasileira.
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